Como complicar um ato simples ou transformando prazer em tortura
Antes, o ato de ir ao cinema, para mim, era assim: alguém me falava de um filme legal, eu via onde estava passando e ia assistir.
Hoje, ir ao cinema virou um processo bem mais complicado. Sexta-feira eu chego no trabalho, entro no site do Guia da Folha e vejo quais são todas as estreias, pré-estreias e mostras da semana.
Depois de ler todas as críticas, determino o que me interessa assistir baseada no diretor, no roteirista, nos atores, nos prêmios recebidos pelo filme ou em tudo isso ao mesmo tempo.
Copio então a programação de cada um dos novos filmes que me despertaram interesse e vou colando no meu arquivo "cinema.txt", que eventualmente já contém os filmes em cartaz há mais tempo que eu ainda não tenha conseguido conferir. Aliás, se for o caso, atualizo, na sequência, a programação desses filmes que ainda não vi. O passo seguinte é excluir as salas do Cinemark, as da Playarte e todas as que ficam longe demais da Paulista.
Pego a lista completa e já filtrada, jogo do Word, boto os nomes dos filmes em negrito, imprimo, dobro a folha em dois e meto na bolsa.
De acordo com minha disponibilidade, vou encaixando os filmes durante a semana, principalmente de segunda a quinta, quando as salas são mais vazias e a turma do oba-oba está em casa vendo TV.
Perto da hora de sair do trabalho checo minha lista, escolho filme, horário e lá vou eu, geralmente sozinha, porque acertar filme, horário e local com outra pessoa é algo que complica ainda mais o processo.
Chegando ao cinema, o primeiro passo é comprar o ingresso. O segundo, ir ao banheiro, mesmo que eu tenha ido ao banheiro imediatamente antes de sair do trabalho. Isso porque, se não vou ao banheiro no cinema, fico com a nóia de que ficarei apertada bem no meio da sessão.
O terceiro passo é comprar um expresso, puro, para viagem. Isso porque, se eu não compro um café, fico com a nóia de que sentirei sono durante a projeção.
Depois de comprar ingresso, mijar e pegar o café, entro na sala, que é quando inicia-se a etapa mais difícil: escolher um lugar longe de pessoas que falam, longe de pessoas que atendem celular e longe de pessoas que chutam a poltrona da frente.
É um processo totalmente intuitivo mas, dada minha prática cinéfila, já tenho conseguido identificar pessoas-problema com certo sucesso.
Assim, me afasto de jovens em turma. Também me afasto de casais, de pessoas portando sacos de pipoca e, sobretudo, me afasto de grupos de velhinhas. Essas sempre comentam os filmes entre si e, pior, interagem com a película. Sabe aquele tipo de gente que solta interjeições durante a projeção? Velhinhas adoram fazer isso.
Minha prioridade é sentar na última fileira, onde ninguém será capaz de chutar minha poltrona. Porém, se na penúltima fileira houver um dos grupos supracitados, a última fileira é imediatamente descartada.
Em algumas salas, onde há fileiras centrais e laterais, já vou logo pras laterais, em geral desprezadas pela turma da bagunça.
Escolhido o local, sento, acomodo minha bolsa na poltrona ao lado, boto meu café no porta-copos e rezo pra que não seja necessário soltar nenhum "shiiiiiiiiii" durante a projeção.
Uma sessão feliz é uma sessão em que o filme é bom, ninguém me chuta, sacos de pipocas não são amassados e não se houve nenhum piu na sala.
Uma sessão feliz tornou-se uma coisa muito, muito rara.
Escrito por Alê às 15h35
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Especial Dia dos Namorados: sobre o que não pode ser deixado para trás
Eu acredito que é possível amar mais de uma vez na vida, bem como também acredito que há pessoas que passam pela vida sem nunca conseguirem amar ninguém de verdade. Assim, por mais que hoje eu esteja sozinha, considero-me uma privilegiada por ter amado mais de um homem e fico feliz por acreditar que virei a amar de novo. Por muito tempo eu tive raiva de Bono pelas seguintes palavras: And love is not the easy thing The only baggage you can bring Is all that you can't leave behind Toda vez que alguma relação minha chegava ao fim eu pensava que Bono não sabia de nada. Pensava que a única bagagem que carregamos é o peso de nossos fracassos, e que o amor não só fica pra trás como acaba dando lugar ao ódio. Demorei muito tempo pra entender que vão-se os amados, mas fica o amor, que nos transforma. Não é preciso que a relação dure para sempre. Mas é preciso que o amor seja preservado. Porque as histórias não morrem, elas permanecem vivas em nossas lembranças, e é importante pensar nelas com doçura para que não passemos a vida remoendo mágoas, sem conseguirmos seguir em frente. Roberto Carlos sempre soube das coisas. "Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi", disse uma vez o Rei. Em última instância, é isso mesmo. Passar uma vida não se entregando ao amor por medo de sofrer deve ser uma coisa muito triste. E é por isso que eu ainda posso quebrar a cara mil vezes, mas continuo sem medo de começar uma nova história, com alguém novo, tudo de novo. Trago comigo os amores que tive, por isso não me sinto só nesse Dia dos Namorados. Termino esse meu especial com uma das mais belas canções de amor já feitas. Uma canção para uma história que acabou, mas cujo amor foi preservado seguindo os ensinamentos de Bono. A todos, um feliz Dia dos Namorados. Outra Vez Roberto Carlos Você foi o maior dos meus casos De todos os abraços, o que eu nunca esqueci Você foi, dos amores que eu tive, O mais complicado e o mais simples pra mim Você foi o melhor dos meus erros A mais estranha história que alguém já escreveu E é por essas e outras que a minha saudade Faz lembrar de tudo outra vez Você foi a mentira sincera Brincadeira mais séria que me aconteceu Você foi o caso mais antigo O amor mais amigo que me apareceu Das lembranças que eu trago na vida Você é a saudade que eu gosto de ter Só assim sinto você bem perto de mim outra vez Esqueci de tentar te esquecer Resolvi te querer por querer Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade Sem nada perder Você foi toda a felicidade Você foi a maldade que só me fez bem Você foi o melhor dos meus planos E o maior dos enganos que eu pude fazer Das lembranças que eu trago na vida Você é a saudade que eu gosto de ter Só assim sinto você bem perto de mim outra vez
Escrito por Alê às 15h14
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Especial Dia dos Namorados: sobre o amadurecimento
Eu devia estar com uns 23 anos quando terminei o namoro com o Xera.
Passado o sofrimento pelo término (sim, quem toma a decisão de terminar também sofre), eu fui em busca de todas aquelas experiências que eu queria vivenciar. Fui em busca de todo um mundo novo que eu ainda não conhecia. Só que esse mundo novo se apresentou bem mais cruel do que eu o tinha imaginado.
Tive que lidar com indiferença, traições, abandono, falta de respeito. Conheci as brochadas, o sexo sem paixão, o sexo sem amor. Engoli sapos, experimentei a falta de amor próprio, a baixa auto-estima.
Eu não conhecia nada disso, e lidar com essas coisas novas foi muito difícil.
Eu vinha de um amor correspondido onde eu não só me sentia amada como também respeitada. Nunca tinha enfrentado grandes dificuldades durante o namoro. O Xera, pra evitar conflitos, sempre me dava razão, mesmo quando eu não a tinha.
Então eu posso dizer que boa parte das experiências ruins que eu tive depois foram por causa da minha falta de habilidade pra lidar com situações que até então me eram desconhecidas. Eu tinha sido mimada demais , e entrei para o jogo amoroso adulto completamente despreparada.
Nesse período me apaixonei algumas vezes e sempre quebrei a cara. Fazia cagadas atrás de cagadas. Como assim eu não tinha sempre razão? Como assim eu tinha que dar o braço a torcer? Como assim eu tinha que fazer concessões? Como assim eu tinha que negociar?
Foi uma fase foda, e eu aprendi tudo na base da porrada.
Não conseguia me relacionar de forma adulta, e isso fazia com que todos os meus relacionamentos fracassassem, mesmo quando meu amor era correspondido.
Entrei numa espiral de tristeza que me levou para a terapia e para os antidepressivos. Passei boa parte dos meus vinte anos na cama, chorando.
Eu simplesmente não conseguia me adaptar a esse novo mundo.
Demorei muito tempo para encontrar paz e equilíbrio na minha vida amorosa. Aliás, isso é muito, muito recente, conforme contei num post semanas atrás. Precisei de muitas paixões e um casamento desfeito para chegar lá.
Hoje eu olho para trás e vejo que cada cara que passou pela minha vida deixou pelo menos alguma coisa boa. Antes eu não conseguia ver isso, porque eu tinha uma tendência a me vitimizar que fazia com que eu só enxergasse as coisas ruins.
Às vezes eu penso como seria a minha vida se eu tivesse levado o namoro de sete anos adiante mas, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca me arrependi da decisão que tomei.
Anteontem assisti ao filme "Divã". A personagem da Lília Cabral, no começo do filme, durante uma briga com o marido, questiona se ela teria feito a melhor escolha casando-se com ele, e compara as escolhas que fazemos com aquela brincadeira do coelho que escolhe uma toca (ou algo assim). Ela se pergunta se teria escolhido a toca certa. E, mais, demonstra curiosidade sobre o que haveria nas outras tocas. Reservariam elas melhores surpresas? Uma vida melhor e mais feliz?
Gostei dessa comparação, e a minha conclusão é a mesma da personagem de Lília: não existe toca certa e toca errada. Nossa vida é uma sucessão de escolhas. Umas revelam-se boas. Outras, ruins. Mas a qualquer momento podemos mudar de toca e seguir traçando nosso caminho sempre em busca do que consideramos melhor pra gente. Basta ter coragem e amor pela vida.
Arrependo-me de algumas escolhas que fiz, sim, mas no final elas fizeram de mim a pessoa que sou hoje.
O que eu deveria ter levado como lição a partir das experiências amorosas dos vinte anos? Acho que, basicamente, uma coisa: no amor, não há culpados.
E eu levei essa lição para a vida? Sim.
Boa parte do meu sofrimento com as experiências amorosas veio do fato de eu sempre procurar um culpado.
Num primeiro momento, eu sempre culpava o outro. Ele é que era um desalmado, um cretino, um filho da puta.
Passada a raiva, eu é que me tornava a culpada. Eu que não tinha demonstrado amor suficiente, eu que tinha descuidado da relação, eu isso, eu aquilo.
Isso só me levou à depressão. Nunca me ajudou a salvar uma relação nem a viver em paz depois que ela terminava.
Demorou pra que eu aprendesse que não é necessário encontrar culpados, e sim descartar aquilo e aqueles que não nos servem e tentar perceber o que pode ser melhorado em nós mesmos.
É isso que tenho feito de uns anos para cá e é isso que tem me ajudado a, enfim, amadurecer.
Escrito por Alê às 11h11
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Especial Dia dos Namorados: o primeiro namorado
Depois de todas as mazelas amorosas da infância e adolescência, eis que eu ingressei no mundo do namoro com o pé direito. Não sem antes ter um certo trabalho.
Xera era o apelido dele (daqui pra frente, nada de nomes). Ele era do primeiro ano de mecânica. Eu, do primeiro ano de processamento de dados. Ele era pouca coisa mais velho do que eu. Tinha repetido o primeiro ano, portanto era veterano. Eu, bichete.
Depois do fatídico baile de formatura, eu e Xera nos tornamos muito amigos. Conversávamos muito durante as aulas vagas. Ele tocava guitarra, gostava de rock e era engraçado. Moreno, alto e com uns olhos verdes pelos quais me apaixonei sem me dar conta. Quando percebi, já estava matando aulas só pra ficar ao lado dele.
Um dia, ele me chamou para ir a um show do Biquíni Cavadão na Cidade Universitária. Topei, claro.
Era um domingo e eu passei quase que o show todo com minha irmã. O Xera e o Ananias, amigo nosso, tinham se mandado sei lá pra onde com uma garrafa de pinga.
O show já estava no fim e eu tinha perdido minhas esperanças de que rolasse algo entre nós. Mas aí ele apareceu, me pegou pela mão, e me levou para trás de umas árvores. Ali, na USP, eu descobri o que as pessoas chamam de "química". Nunca pensei que um beijo pudesse desencadear tantas reações físicas, psicológicas e hormonais. A coisa pegou fogo e foi a primeira vez que um cara meteu a mão nos meus peitos.
Fiquei o resto da tarde num exercício de beijar e afastar mãos de lugares até então proibidos. É bom lembrar que eu ainda era crente, portanto mão no peito, mão na bunda e mão dentro da calcinha realmente não estava nos meus planos.
Fomos embora de namoradinhos e, a partir de então, eu não pensava em nada além do Xera. Tive crises de consciência por causa das mãos bobas e tal, mas eu não via a hora de ficar com ele de novo.
Só que o menino me deu uma canseira da porra. Na segunda-feira, no colégio, foi como se nada tivesse acontecido. Éramos os mesmos amigos de sempre.
Um tempo depois, começamos a ficar escondidos. Primeiro no ponto de ônibus, depois na pista de skate, nas quadras e, enfim, num parque em Santo André, que virou nosso esconderijo. Lá tínhamos nosso canto e nossa árvore que, se falasse, teria muita história pra contar. Foi ali que Xera começou a tentar me convencer a ir pra casa dele. E eu resistia tanto pela questão religiosa quanto pelo fato de ele nunca me assumir como namorada.
Aliás, o fato de ele não me assumir fez com que eu sofresse feito uma pobre diaba. Nunca contei para as minhas amigas que estava ficando com o Xera, porque sabia que elas iriam me censurar, me dizer que ele não gostava de mim e que só queria se aproveitar. E isso era o tipo de coisa que eu não queria ouvir, por mais que eu começasse a acreditar que essa era a verdade.
O fim do ano se aproximava e Xera corria o risco de bombar e ser jubilado, porque era assim que funcionava na ETE. Se você repetisse duas vezes o mesmo ano, você estava fora.
Entrei em pânico com a perspectiva de não ver o Xera nunca mais. Comecei a dar aulas de matemática pra ele e, feito uma otária, fiz todos os milhares de exercícios de limite, derivada e o caralho que ele era obrigado a entregar na recuperação. Ao invés de ir curtir as minhas férias, fiquei dando todo o suporte de que ele precisava e, no dia em que o resultado das provas de recuperação seria anunciado, lembro-me de que fui até o colégio pra acabar logo com minha angústia. Ele tinha passado, e eu pude enfim respirar aliviada sabendo que o veria de novo no ano seguinte.
E foi logo no começo do segundo ano que rolou o que contei aqui no post anterior. Ainda não tínhamos assumido nada mais sério, mas eu não tive mais como resistir.
Não sei o que houve, mas a partir de então começamos a namorar sério, e ficamos juntos por sete anos.
Eu não podia ter tido um primeiro namorado mais especial. Funcionávamos tão bem juntos que quase nunca brigávamos, exceto por uma ou outra crise de ciúmes de ambas as partes.
Minha família amava o Xera, eu era louca por ele, e ele por mim.
Crescemos juntos. Juntos começamos nossas vidas profissionais, juntos compramos nosso primeiro carro, juntos fizemos muitos planos de vida a dois.
Minha vida era, então, um mar de tranquilidade. Mas, no último ano de namoro, comecei a viver uma grande inquietação.
Há muito tempo eu já não frequentava mais a igreja e alguns "valores" tinham ficado para trás. Aquilo que eu julgava bom, continuei carregando comigo. As amarras, essas ficaram para trás.
Notei que meu destino estava traçado: eu me casaria, teria filhos e viveria uma vida feliz com o Xera. E isso não era o que eu queria pra mim. Não naquela época.
Eu tinha vinte e poucos anos e achava que existia um mundo todo a ser descoberto. Um mundo que eu não descobriria se casasse com meu primeiro namorado. Eu sentia uma necessidade de liberdade, de vida, de experiências que eu sabia que não teria se continuasse levando aquele namoro adiante.
Por mais que eu amasse o Xera, decidi terminar com ele. Foram meses e mais meses de sofrimento, pensando em como faria isso.
Uma noite, enfim, criei coragem. Eu não sabia como explicar pra ele o que eu estava sentindo, mas estava convicta de que terminar era o melhor a ser feito.
Choramos juntos por toda a noite. Choramos juntos por toda a madrugada. Foi a decisão mais dolorosa da minha vida até então e eu fiquei arrasada por fazer aquele homem chorar.
Por muitos dias me senti culpada pelo sofrimento do Xera. Me achei uma pessoa horrível por fazê-lo passar por tudo aquilo. Mas, em nenhum momento, voltei atrás. A decisão estava tomada, e era definitiva.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência do primeiro namoro? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Nem sempre os caras querem só sexo.
2) Uma linda história de amor não precisa do "até que a morte nos separe".
E eu levei essas lições para a vida? Mais ou menos.
Eu poderia ter desistido do Xera por termos ficado meses só com as safadezas no parque. Às vezes tudo que você quer é um pouco de safadeza mesmo, mas não era meu caso na época.
Eu queria namorar. Com a enrolação toda, se eu tivesse partido do princípio de que o Xera só queria sexo e tivesse desistido, eu teria perdido a chance de dividir minha vida com um desses raros homens que fazem com que a gente se sinta realmente especial.
Num mundo em que queremos tudo agora, em que não sabemos esperar por nada e em que é mais fácil acreditar em clichês do que batalhar pelo que se deseja, talvez as grandes histórias de amor estejam morrendo. Mas eu tenho resistido à tentação de ficar com as respostas fáceis e continuo correndo atrás dos meus sonhos.
A gente cresce acreditando que uma história de amor bem sucedida é uma história de amor que dura para sempre. Confesso que, toda vez que estou amando, alimento a esperança de que, enfim, eu tenha encontrado um amor pra toda vida.
Mas, deixando de lado esse "viveram felizes para sempre" dos contos de fada, o que existem são histórias de amor lindas e que dão certo, sim, ainda que não durem até a velhice.
Minha história com o Xera é um exemplo disso. Eu jamais poderia dizer que a gente não deu certo. Por sete anos, fomos um casal feliz. Nosso amor foi real, recíproco e lindo como um conto de fadas. Como dizer que não deu certo?
"Até que a morte nos separe" pode significar muito mais uma vida de comodismo do que de amor. E eu fico com o amor, sempre.
Escrito por Alê às 15h00
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Especial Dia dos Namorados: sexo antes do casamento
Falar da minha primeira experiência sexual exige que eu leve em conta dois aspectos: ignorância e formação religiosa.
Sobre a ignorância.
Quando eu era criança, ficava realmente intrigada quando via cenas de casamento em filmes ou novelas. Na minha cabeça, os bebês vinham ao mundo não como consequência de um ato sexual (que então eu nem sabia que existia), e sim de uma cerimônia de casamento. Era como se o bebê estivesse sempre ali, esperando pra nascer. Quando ele via a cerimônia acontecendo, era dada a largada. Então eu não entendia como é que os bebês distinguiam um casamento de verdade de um casamento de ficção. Quem dizia pra eles que o casamento de novela era encenado e que, portanto, não valia?
Na quarta série, tive aulas de educação sexual. Todo aquele papo de pênis e vagina me dava certa preguiça. O mecanismo todo me parecia muito complicado, e engraçado mesmo era ver a professora botando uma camisinha na banana.
Em casa sexo era tabu. Meus pais não falavam sobre o assunto. Então, quando enfim comecei a me interessar pela coisa toda, foi a TV que se encarregou de me ensinar tudo que eu sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar.
Foi numa cena de nu frontal em um filme qualquer que vi um pau pela primeira vez. Lembro-me que achei engraçada a existência de pêlos na genitália masculina. Sei lá. Nunca tinha pensado que eles pudessem existir. O resultado me pareceu bem esquisito.
Minhas principais referências sobre sexo vinham de filmes como "A Lagoa Azul" e "Porky’s". E eu achava que já sabia o bastante: menino pelado, menina pelada, vai-e-vem, vai-e-vem, suor, vai-e-vem, vai-e-vem, gemidos, vai-e-vem, vai-e-vem, caras de dor, vai-e-vem, vai-e-vem, caras de satisfação.
É, parecia fácil.
Sobre a formação religiosa.
Eu era uma garotinha crente. E, na igreja, você aprende que existe o céu e existe o inferno. Existe Deus e existe o Diabo. Existe o certo e existe o errado.
O errado é mais conhecido como pecado. E, se você pecar, você está fodido, porque o seu destino será torrar no fogo do inferno com o tinhoso te espetando a bunda com um tridente por toda a eternidade. É isso que se aprende na igreja, e era nisso que eu acreditava.
Na extensa lista de pecados possíveis, consta o sexo antes do casamento. Ou seja, trepar antes de botar aliança significa danação eterna no andar de baixo.
Só que, como nas leis dos homens, existem brechas também nas leis de Deus. E foi uma dessas brechas que usei pra me salvar da culpa e condenação pelo pecado da luxúria.
Me ensinaram na igreja que, para Deus, não existe pecadinho e pecadão. Tudo que é errado é pecado e ponto, sendo que não existe graduação nem para o perdão nem para a condenação. Oras, se colar na prova e transar antes do casamento dava na mesma, achei que então eu não precisava esperar pelo matrimônio pra conhecer os prazeres da carne. Afinal eu já errava em tanta coisa mesmo! Uma a mais não faria assim tanta diferença pra mim no juízo final.
E foi assim, ignorante e carola, que me enfiei debaixo dos lençóis com meu primeiro namorado, pouco tempo depois de ter dado meu primeiro beijo.
Porque comigo é assim: 8 ou 80. Se demorei mais do que todo mundo pra beijar na boca, por outro lado fui a primeira da turma a perder, aos dezesseis anos, a virgindade.
Não teve nada de "A Lagoa Azul" na minha primeira vez, mesmo eu sendo completamente apaixonada pelo meu namorado, que tinha certa experiência apesar de ter a mesma idade que eu. Foi tudo assustador, doloroso e constrangedor.
A primeira vez não tem glamour, não tem sensualidade, não tem tesão. A primeira vez não passa de uma experiência. Você está ali pra aprender como a coisa toda funciona, e não pra se divertir.
Pelo menos foi assim pra mim.
Hoje eu fico muito feliz por ter vivido esse momento com um cara que me amava tanto quanto eu o amava. Isso é muito especial. O fato de ele ter sido carinhoso, paciente e de ter ficado comigo por sete anos fez toda a diferença para a minha formação emocional.
Mas na época eu não tive toda essa clareza de raciocínio, não. Assim que pude enfim vestir as minhas roupas, fui para o banheiro e chorei como talvez eu nunca tivesse chorado antes.
Chorava de culpa. Culpa por ter pecado. Naquela hora, a teoria do pecadinho e do pecadão não fez diferença alguma. Eu estava certa de que tinha errado, de que o que eu tinha feito era muito feio e de que Deus nunca me perdoaria. Chorava de vergonha. Vergonha de pensar em encarar meus pais. Não me sentia mais digna do amor deles.
Sofri tudo em silêncio, porque eu me sentia tão criminosa que não tive coragem de me abrir com ninguém.
E por um bom tempo foi assim: eu transava e chorava, transava e chorava, transava e chorava... Embora eu ainda sentisse a culpa cristã pesando sobre mim, eu começava a achar cada vez melhor um outro tipo de peso: o do corpo do meu namorado sobre o meu.
Não sei como foi, mas um dia a culpa foi embora. Bem depois da ignorância (porque o que é bom a gente aprende rapidinho), mas foi embora.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência da minha primeira transa? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Nunca queira aprender com a TV nada além de receitas culinárias.
2) Nunca parta do pressuposto de que você se casará um dia.
E eu levei essas lições para a vida? Opa!
TV hoje só pra ver os jogos do tricolor e a Dança dos Famosos. Depois que eu constatei que esse negócio do homem meter na mulher e ambos gozarem juntinhos instantaneamente só existe na cabeça de roteiristas, desisti da TV enquanto educadora e me joguei nas aulas práticas.
Esperar pelo casamento para poder transar ou fazer qualquer outra coisa equivale ao que minha avó chamava de "contar com o ovo no cu da galinha". Se eu tivesse seguido o que a cartilha da igreja manda, hoje eu seria uma bela virgem de 32 anos. E de que serviria a minha castidade? De motivo de galhofa. Ou de pena. Ou de insanidade. Ou de tudo isso ao mesmo tempo. Susan Boyle está aí e não me deixa mentir.
Teria perdido toda a minha juventude à espera da subida ao altar. E isso sim seria um pecadão!
Escrito por Alê às 23h52
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Especial Dia dos Namorados: o primeiro beijo
Era o fim dos anos de pureza e inocência. Olhares não mais me satisfaziam. Cartas não mais me satisfaziam. Mãos dadas não mais me satisfaziam. Eu queria é beijar na boca.
Ver repetidamente filmes como "A Garota de Rosa Shocking", "Dirty Dancing", "Admiradora Secreta" e "Grease" fazia-me ficar suspirando pelos cantos, idealizando situações românticas e, sobretudo, sonhando com meu primeiro beijo.
Imaginei esse primeiro beijo de mil formas diferentes e com mil caras diferentes. Alexandre era o número um em meu imaginário, mas vieram também John Travolta, Patrick Swayze, James Spader, o Neil do Dominó...
Nessa época era comum eu falar sozinha, travando diálogos com cada um dos beijáveis, até que a conversa culminava naquele beijo estilo Burt Lancaster e Deborah Kerr em "A Um Passo Da Eternidade".
Eu estava então na oitava série e todas as minhas amigas já tinham beijado. Foi aí que bateu o desespero.
Depois que terminei com o Alexandre, me interessei por um cara que trabalhava numa quitanda (!). A quitanda ficava no meu caminho para a escola e todo dia, quando eu passava ali em frente, o rapaz ficava me olhando.
Uma amiga da minha classe começou a namorar o primo do verdureiro. Daí pra eu conseguir um primeiro encontro com o rapaz foi um pulo.
Não me lembro dos trâmites. O que ficou na minha memória foi a cena de eu na quitanda com o rapaz pegando na minha cintura e eu dizendo que precisava ir embora. Espanei! Por algum motivo, não achei nada romântico estar em meio a alfaces e chicórias beijando um cara que eu mal conhecia. Fugi de lá sem beijo nenhum e, a partir de então, mudei o caminho pra chegar à escola.
Pouco tempo depois conheci, em Itanhaém, um feirante (!) cuja família era amiga da minha tia. Pense num cara gato. O Márcio (nunca me esqueci do nome dele) era mais. Devia ter uns 20 anos, moreno, alto, bonito e sensual. Com certeza seria a solução para o meu problema.
Devo tê-lo visto três ou quatro vezes só, sempre de sunga, durante essas minhas férias na casa de praia da minha avó. Foi o suficiente pra eu me apaixonar e acreditar que ele também estava apaixonado por mim. Quando voltei pra São Paulo, fiquei ansiosa à espera da próxima ida à Itanhaém (onde a família dele também tinha casa).
Dias depois minha irmã voltou ao litoral com a parentada e eu, que estava me preparando para o Vestibulinho pra ingressar na ETE Lauro Gomes, acabei ficando em São Paulo pra estudar. E eis que ela volta me contando que tinha ficado com o Márcio.
Meu mundo caiu mais que o do Maysa. Chorei noites inteiras em silêncio. Acho que foi minha primeira desilusão amorosa. E, como se isso não bastasse, minha irmã, mais nova que eu, tinha beijado na boca. Eu continuava virgem, mas pelo menos consegui entrar na ETE.
Quinze anos e sem nenhum contato íntimo com um menino. Sentia-me diminuída, humilhada, um ET, uma pária social.
Mas aí veio aquele evento que na época substituía a atual micareta: o baile de formatura. Não o meu, claro. Mas o da turma que tinha se formado no ano anterior à minha entrada no colégio. Como a Laís-amiga-de-fé-irmã-camarada conhecia um mocinho que tinha se formado, acabamos indo ao baile.
Eu já tinha conhecido o rapaz porque, mesmo depois de formado, ele tinha ido ao colégio algumas vezes em função do estágio, que era obrigatório para a obtenção do diploma. E a Laís tinha me contado que ele (olha só, nem me lembro do nome do cara!) estava interessado em mim. Como eu a essa altura estava interessada em beijar quem quer que fosse, dei uma banana ao Burt Lancaster e fui ao baile disposta a tudo.
Fato é que o beijo aconteceu e, puta merda, como eu odiei aquilo tudo! Eu não tinha parâmetros para comparação, mas aquela língua na minha boca, no meu nariz, no meu olho e na minha orelha não podia ser uma coisa boa. Aliás, deve ser por isso que até hoje odeio língua dentro da minha orelha. Traumatizei.
Que fiz eu? Pedi pra sair, lógico. Falei que ia fazer um xixi e não voltei nunca mais.
Fiquei me esgueirando pela festa até que encontrei o James, do terceiro ano de mecânica, veterano que me protegia dos trotes. Era um negro lindo e divertido que em pouco tempo de colégio já tinha se tornado um grande amigo.
Conversa vai, conversa vem e, quando vi, já estávamos nos beijando. E dessa vez, sem língua nos buracos errados, eu senti o que deve ser sentido em todo e qualquer beijo: um friozinho no estômago.
Mas aí já viu, né? Eu levei séculos pra ficar com um menino e, quando finalmente acontece, eu meto o pé na jaca no melhor estilo Alessandra de ser e fico logo com dois em uma só noite. E olha que eu ainda nem bebia!
Com medo do primeiro rapaz me pegar beijando o segundo e eu ficar mal falada na escola, fugi também de James.
E assim, em fuga, terminou a noite do meu tão sonhado primeiro beijo.
O que eu deveria ter levado como lição a partir dessa experiência no baile de formatura? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Assistir a filmes românticos não leva ninguém a lugar nenhum.
2) Nunca idealize nada nessa vida, porque você fatalmente se frustrará.
E eu levei essas lições para a vida? Lógico que não.
Na verdade as duas lições são uma só, porque é em função dos filmes românticos que passamos a idealizar pessoas e situações.
Apesar do meu primeiro beijo ter ficado a anos-luz de distância daquele que eu tanto tinha sonhado, nunca deixei de ver os filmes e idealizar tudo aquilo que se refere ao amor.
Assim continuo esperando meu príncipe encantado, aquela entidade que me fará viver feliz para sempre. Aquele cara que, tal qual um Richard Gere em "Uma Linda Mulher", me aceitará como eu sou e me tirará do meu mundo solitário a bordo de uma limusine branca, ao som de "At My Most Beautiful" (no filme era "It Must Have Been Love", mas eu prefiro R.E.M. a Roxette e, como o sonho é meu, a trilha sonora também é minha, dá licença?).
E, na boa, prefiro continuar com esses sonhos ingênuos e com meus filmes açucarados. Porque no dia em que eu assumir que o que existe na vida real são beijos com língua na orelha e sexo em meio a verduras, o mundo se tornará um lugar muito triste pra se viver.
Escrito por Alê às 13h06
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Especial Dia dos Namorados: o amor platônico
Passei a maior parte da minha infância e começo da adolescência apaixonada por um único garoto: o filho do pastor da igreja que eu frequentava. Recordo-me dessa paixão como uma das experiências mais bonitas e gostosas que já vivi.
Não me lembro como foi que tudo começou. Só sei que, um dia, me peguei esperando ansiosamente pelo domingo, e não para estudar a Bíblia, mas sim para ver Alexandre, o filho do pastor. Não demorou para que eu passasse todos os dias sonhando com o domingo, quando então ia à escola dominical pela manhã e ao culto à noite.
Chegado o domingo, a cena se repetia. Eu me sentava de forma a poder ver Alexandre, mas nunca conseguia fazer contato visual com ele. Eu era tão tímida que só o observava quando tinha certeza de que ele não me notaria.
Assim, um domingo feliz era quando eu conseguia dizer "oi" para ele. Ia pra casa com meu coraçãozinho transbordando de amor. Repassava mil vezes a cena do cumprimento na minha cabeça e tentava decifrar significados ocultos em qualquer movimento que Alexandre tivesse feito.
Também não sei como se deu, mas um dia percebi que Alexandre também me observava.
A partir de então comecei a fazer de tudo para chamar a atenção dele, para impressioná-lo. Foi nessa época que estudei a Bíblia alucinadamente porque, nas tardes de domingo, havia reuniões da UPA (União Presbiteriana de Adolescentes) e, nessas reuniões, rolavam uns debates e umas gincanas com perguntas bíblicas. E eu sabia muito, porque passava a semana me preparando para que Alexandre se apaixonasse pela minha sabedoria. Em um ano cheguei a ler a Bíblia inteira, do Gênesis ao Apocalipse, livro por livro, capítulo por capítulo.
Os momentos em que conseguia chegar mais perto de Alexandre eram justamente nessas reuniões. Eu chegava cedo e sentava-me sempre onde houvesse um espaço pra que ele pudesse se sentar ao meu lado. Às vezes dava certo, e eu ficava tão nervosa que não conseguia nem me mover na cadeira, com medo de que ele notasse minha respiração ofegante.
Foram anos assim, nesse amor velado.
Um dia, começou a rolar uma troca de correspondências entre jovens presbiterianos. Não me lembro bem como era, mas a gente tinha que enviar postais com mensagens bíblicas para um número x de jovens, de forma que ia-se formando uma corrente. Até que, certa tarde, chegou pelo Correio uma carta do Alexandre para mim. O postal, uma mensagem bíblica e, em letras miúdas num cantinho, um versículo de Cantares de Salomão. Pra quem não sabe, o livro de Cantares é o livro da Bíblia que fala do amor homem-mulher, de sexo e de paixões. Pena que não estou com minha Bíblia aqui para citar o tal versículo, do qual não me lembro de cabeça. Mas, enfim, Alexandre tinha se declarado. O sentimento que eu tinha por ele era recíproco.
Lia aquele postal mil vezes ao dia, como que pra me certificar de que eu não tinha sonhado.
Claro que retribui a carta dele e, igualmente, botei lá um versículo, também de Cantares.
Pronto. Éramos oficialmente um casal. Não nos tocávamos, mas trocávamos cartas, nos amávamos, e isso nos bastava.
Foram meses e mais meses assim. Depois de um tempo, todo mundo sabia que éramos namorados e, a essa altura, estávamos sempre juntos.
Até que, um dia, houve a organização de um passeio da UPA para o Playcenter. Fretaríamos um ônibus e iríamos todos.
Vislumbrei ali a oportunidade do primeiro beijo. Eu devia ter uns treze anos. Os hormônios fervilhavam e eu estava com a ideia fixa no primeiro beijo. Na minha cabeça, o imaginei de mil maneiras diferentes.
Chegou o dia e, claro, eu e Alexandre sentamos lado a lado no ônibus. Chegamos ao parque, passamos o dia todo lá, grudados, e nada de beijo. Porém, num momento em que nos afastamos da turma, ele pegou na minha mão pela primeira vez. E foi a sensação mais gostosa do mundo. Não dá pra explicar o quão mágico foi esse momento pra mim. Hoje, em tempos em que os caras metem primeiro a mão na nossa bunda pra depois pegarem nas mãos, esse meu momento juvenil pode soar até patético. Mas está aí um momento do qual me lembro até hoje com um sorriso no rosto.
O problema é que o tempo foi passando e o primeiro beijo nunca aconteceu. Todo domingo eu esperava uma chance de ficar sozinha com Alexandre. A cada passeio promovido pela UPA minhas esperanças se reacendiam. Mas o fato é que eu já estava perto de completar quinze anos, e tudo que eu tive do Alexandre foram suas mãos nas minhas.
Eu já não podia mais. Estava na idade de satisfazer os desejos físicos. O amor platônico não mais me servia. Mandei uma cartinha pro Alexandre terminando tudo.
Até hoje lamento que meu primeiro beijo não tenha sido dele. Teria sido, certamente, um desses momentos que ficariam eternizados.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência desse amor platônico? Acho que, basicamente, uma coisa: nunca espere que um homem tome qualquer tipo de iniciativa.
E eu levei essa lição para a vida? Totalmente.
Hoje, se eu tenho vontade de dar um beijo em alguém, eu dou. Se eu gosto de alguém, eu digo. Se eu quero trepar, deixo claro.
A vida passa rápido demais e, acredito eu, é uma só. Não quero morrer com outros arrependimentos como o de nunca ter beijado aquele que foi o amor mais puro e doce de toda minha vida.
Escrito por Alê às 22h52
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Especial Dia dos Namorados: os pedidos de casamento
Não que eu seja uma deusa hoje mas, quando eu era criança, eu era uma coisinha de Jesus. Usava botas ortopédicas por causa dos joelhos tortos que me faziam cair feito folha seca no outono. Era gordinha, dessas bem rechonchudas, de bochechas vermelhas. E tinha um cabelo que, por Deus, se eu não amasse muito a minha mãe eu a odiaria até hoje por me submeter ao ridículo daquele corte tigelinha.
Não sei se eu era legal. Creio que não. Meus interesses, além da Bíblia, eram desenhar animais, tocar flauta, empinar pipa e apanhar amoras no fundo do quintal da casa dos meus pais. É, eu devia ser muito chata.
Como se isso não bastasse, eu também era má. Implacável. Pior que o personagem de Clint Eastwood em "Gran Torino". Eu realmente não tinha coração.
Porém, sei lá por que, houve meninos que gostaram de mim nessa época. E, mais inexplicavelmente ainda, houve dois meninos que me pediram em casamento.
Pra quem não é da minha época e/ou não viveu na periferia, preciso explicar algo antes de mais nada. Quando eu cursava o primário, época em que ocorreram os dois episódios que aqui relatarei, havia uma iguaria chamada arrozinho, vendida nas cantinas e portas de escolas de bairros ralés como aquele em que eu morava. Era mais ou menos assim: algo com o formato de arroz, só que doce e cor de rosa, embrulhado num saquinho transparente que, em geral, trazia amarrado na ponta um anel vagabundo e colorido.
Isto posto, vamos ao primeiro pedido de casamento.
Era a hora do recreio e eu e uma amiga estávamos sentadas na escadaria que dava para a quadra de ginástica da escola. Foi quando Clemerson, que estudou comigo da primeira a quarta série, se aproximou de mim. Pelo que me lembro, Clemerson era um menino bonito e bem meu amigo. Mas, naquele dia de sol, ele resolveu se declarar.
Sentou ao meu lado ignorando a presença de minha amiga e, me estendendo um anel do arrozinho, disse que gostava de mim e que queria se casar comigo. Nem pensei. Tomei o anel da mão dele e o arremessei no meio da quadra. Clemerson foi até lá, apanhou o anel e ficou meses sem olhar na minha cara.
Pausa dramática, porque não há nada que justifique essa selvageria de minha parte.
Mais ou menos na mesma época, veio o segundo pedido de casamento, que não foi exatamente um pedido.
Era noite, meus pais tinham saído e meu avô cuidava de mim e de minhas irmãs. Como meu pai não deixava que fôssemos pra rua nunca-jamais, aproveitamos a generosidade de que só os avós são capazes e ficamos eu e Vanessa sentadas na calçada, olhando o movimento noturno. Meu avô, pelo que me lembro, estava num bar ali bem próximo.
Tindo, um dos moleques do bairro que devia ter a mesma idade que eu, vinha subindo o morro (meus pais, até hoje, moram nessa ladeira) com mais algum vizinho que não me lembro quem era. Da esquina, ao me ver, já começou a gritar: "quando eu crescer, vou me casar com a Alessandra". E repetia: "quando eu crescer, vou me casar com a Alessandra".
Quem me conhece sabe que meu sangue ferve a temperaturas bem mais baixas que cem graus Celsius. E meu sangue ferveu com a ladainha de Tindo.
Enquanto ele se aproximava berrando, peguei uma pedra que estava no chão. E foi então, num ato de total covardia, que eu esperei ele passar por mim e lasquei-lhe uma pedrada, pelas costas.
Gente, eu sou do tipo que, se amasso um pedaço de papel pra jogar no lixo que fica ao meu lado, erro o alvo. Mas, nesse dia, eu acertei em cheio a cabeça de Tindo, um alvo distante e em movimento.
Eu e minha irmã saímos em disparada pra dentro de casa. Entramos, apagamos as luzes, trancamos a porta e fomos pra cama, fingindo dormir. Nem cinco minutos depois, alguém bate à porta. Era o Ney, outro vizinho, querendo saber quem tinha acertado o Tindo, que estava sangrando lá na rua. Pasmem! Eu, com medo de apanhar quando meus pais chegassem, disse que tinha sido a Gislene, uma menina da idade da minha irmã, que era nossa vizinha e amiga. Ou seja, eu não valia nada mesmo.
Ninguém acreditou na minha mentira deslavada, mas ficou tudo por isso mesmo.
O que eu deveria ter levado como lição a partir dessas experiências de brutalidade e violência? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Não é necessário violência pra se dar um pé na bunda, até porque um dia a bunda fatalmente será a sua e você vai ver que dói mesmo que não haja agressão.
2) Nunca despreze um pedido de casamento. Pode ser o único que você ouvirá na vida.
E eu levei essas lições para a vida? Enfim, sim.
Depois que eu descobri o clássico "o problema não é você, sou eu", nunca mais precisei de pedras.
A segunda lição, na verdade, não posso dizer que aprendi. Ela me foi imposta, porque nunca mais ninguém quis se casar comigo. Quase todos os meus ex se casaram com outras sem jamais terem me dado sequer uma aliança de compromisso. Virei uma espécie de trampolim para casamentos. Os caras passam pela minha vida, fazem um estágio e acabam levando outra pro altar.
Estaria eu pagando pelos meus pecados infantis? Gislene, a vizinha que eu injustamente acusei, teria me feito algum tipo de macumba? Tudo começa a fazer sentido.
Escrito por Alê às 02h25
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Especial Dia dos Namorados: o homem mais velho
Depois de Wagner, tive um amor fugaz. Durou um dia. Mais precisamente, o tempo de ida e volta de São Paulo a Jacareí.
Eu devia ter uns sete anos na época. Minha avó, que era da Igreja Adventista, me convidou para acompanhá-la nessa viagem que seria uma espécie de confraternização entre a igreja que ela frequentava e a igreja de Jacareí.
Eu era da Igreja Presbiteriana, mas vira-e-mexe ia à igreja da minha avó. E Dona Esther adorava me exibir. Eu era bem afinadinha e sabia uns cânticos sobre as pragas do Egito. Então era batata! Se eu visitava a igreja de vovó, a certa altura era convidada para ir à frente apresentar meu número musical. Não me perguntem como eu tinha coragem. Porque hoje, só de pensar, tenho vontade de enfiar minha cabeça num buraco, feito um avestruz.
O fato é que eu fiquei famosa na igreja Adventista. Devia ser uma espécie de astro-mirim, algo como uma Maísa de Deus. E então, quando fui a tal confraternização, eu já conhecia todo mundo.
Mas não conhecia o moço bonito de barba, cujo nome não me lembro. Devia ter uns vinte anos a mais do que eu e estava acompanhado de uma moça tão bonita quanto ele.
Um aparte: será que vem daí, dessa experiência infantil com um homem mais velho, minha tara por homens barbudos? Se ainda fizesse análise, levaria essa questão para o divã.
Foi amor à primeira vista.
Lembro-me que ele conversava muito comigo e deve ter se encantado com meu papo infantil porque, quando entramos no ônibus fretado, ele sentou-se ao meu lado, deixando que sua namorada se sentasse com minha avó.
Como eu queria me lembrar sobre o que conversamos! A julgar pela minha experiência de vida à época, devo ter falado sobre a criação do mundo em 6 dias, sobre o pecado capital, sobre a curiosidade que fez a esposa de Ló virar uma estátua de sal, sobre a sacanagem que Jacó fez com Esaú, sobre a vida filha da puta de Jó. Afinal, com sete anos, quase tudo que eu sabia eu tinha aprendido através da Bíblia. Como o rapaz era crente, ponto pra mim.
Fomos para Jacareí, passamos o dia todo por lá e retornamos a São Paulo no finalzinho da tarde. E eu grudada no moço!
Lembro-me de muito pouco, mas eu acho que esse moço bonito ficou na minha memória porque, a certa altura, eu fantasiava que ele ia largar da namorada e esperar eu crescer para se casar comigo.
Cá estou eu com 32 anos e, a não ser que minha vida dê uma reviravolta amorosa digna de um romance bem novelesco, creio que não me casarei com o fiel da Adventista, pois nunca mais ouvi falar dele. Sumiu, assim como Wagner.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência desse amor fugaz por um homem mais velho? Acho que, basicamente, duas coisas: 1) Nunca espere que um cara vá terminar um namoro ou um casamento pra ficar com você.
2) Não basta ter afinidades, sejam elas religiosas, filosóficas, morais, culturais, ou sexuais para que um relacionamento vá adiante.
E eu levei essas lições para a vida? Infelizmente, não.
Na vida adulta, cheguei a me envolver com caras comprometidos. A princípio não sabia que eram comprometidos, mas isso nem vem ao caso, porque depois eu soube e aceitei a situação, achando que eles se apaixonariam por mim, largariam as primeiras-damas e viveríamos um amor eterno. Ahã. Isso que dá ficar vendo muita comédia romântica.
Continuei por muito tempo achando que pra ter um relacionamento duradouro é imprescindível ter afinidades. E aí namorei caras que gostavam das mesmas bandas que eu, que viam os mesmos filmes que eu, que torciam para o mesmo time que eu, que bebiam tanta cerveja quanto eu... E, oi, olha eu aqui solteira!
Começo a chegar à conclusão que, na infância, as únicas lições que aprendemos são aquelas que copiamos do quadro negro.
Escrito por Alê às 16h40
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Especial Dia dos Namorados: o primeiro amor
Quando é que brincar de boneca, assistir a desenhos animados e colorir figuras deixam de ser as únicas ocupações de uma menina? Mais precisamente, quando é que os meninos passam a ser um interesse para uma menina?
Não sei responder a essa pergunta com precisão, mas posso afirmar que o primeiro menino que me fez ver o sexo masculino de uma maneira diferente foi Wagner, meu coleguinha de classe na pré-escola. Eu tinha então seis anos de idade.
Uma coisa curiosa, da qual só me dei conta agora que parei para pensar em amores do passado, é que, em se tratando da pré-escola, lembro-me de pouquíssima coisa além de Wagner.
Não me lembro da cara da minha professora e muito menos de seu nome. Não me lembro quem eram minhas amiguinhas. Lembro-me somente do meu uniforme, da minha lancheira e de Wagner. Isso me leva à primeira conclusão: desde criança eu dou uma importância excessiva à moda, à comida e ao amor.
Outro dia, na casa de minha mãe, fui olhar umas fotos antigas e percebi que meu primeiro amor era a coisinha mais estranha da sala. Tinha um cabelinho que fazia com que ele se parecesse com o Chico Bento. Isso me leva à segunda conclusão: meu gosto peculiar para homens vem desde os tempos remotos. Sim, porque eu gosto dos bizarros, dos estranhos, dos tatuados, dos descabelados, dos meio sujos. Se o cara for do tipo fortão, descarto. Se for engomadinho-balada-vila-olímpia, nem olho. Se for o executivo terno-e-gravata, vai passar batido.
Bom, o que fez de Wagner meu primeiro amor? Não tenho a menor ideia. Só sei que, na hora do recreio, torcia pra que ele viesse brincar comigo na gangorra. E, na época da festa junina, meu coraçãozinho pulou alegremente quando eu soube que Wagner seria meu par na quadrilha.
E esse é dos poucos momentos românticos que tive com ele e também dos poucos que me lembro. "Olha a cobra"! "Olha a chuva"! E eu não via mais nada além daquele caipirinha que, com cabelo de Chico Bento, incorporou bem o estilo roça de ser.
As aulas acabaram, eu fui para o glorioso EEPSG Ezilda Nascimento Franco, onde fiquei até a sétima série, e Wagner, bem, nunca mais tive notícias dele. Nada, nenhuma pista, simplesmente desapareceu. A julgar pelo lugar miserável em que morávamos, capaz de hoje ele ser casado e pai de muitos filhos remelentos. Porém, como nunca mais o vi no bairro, talvez ele tenha tido melhor sorte.
Não me lembro de ter sofrido, de ter chorado, de ter ido em busca do meu primeiro amor desaparecido. Simplesmente comecei a primeira série em outra escola e a vida seguiu em frente, sem lamentações.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência do primeiro amor? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Nunca espere de um homem muito mais do que companhia para brincar numa gangorra.
2) Quando um amor se vai, não é preciso entrar em desespero. Sofrimento é totalmente desnecessário e não reverte a situação. Basta continuar vivendo que tudo se ajeita.
E eu levei essas lições para a vida? Infelizmente, não.
Wagner, apenas equilibrando a gangorra, me satisfazia. Mas, em algum momento, eu comecei a querer coisas mais complexas e impossíveis de se encontrar em um homem só como carinho, atenção, inteligência, cultura, senso de humor, beleza, sucesso, virilidade e pau grande.
Wagner se foi sem mandar um email, sem dar um telefonema, sem sequer um tchauzinho e eu não precisei de terapia por causa disso. Mas, em algum momento, eu comecei a achar que tomar um pé na bunda tornava a vida sem sentido.
A gente deveria ir simplificando as coisas ao longo da vida, mas não é bem assim que funciona. Pelo menos não comigo.
Escrito por Alê às 12h14
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Love is in the air
Não acredito que vou dizer isso, mas vamos lá: minha vida está mansa, minha gente. Dá até medo de, dito isto, formar-se um furacão lá fora. Mas a verdade é que, nos últimos tempos, minha vida segue tranquila como um riozinho de alguma cidade pacata do interior.
No trabalho, surgiu um projeto novo que deve garantir meu emprego pelo menos até o final do ano. Em casa, acabaram-se as obras e agora passo as noites na deliciosa tarefa de escolher tecidos, luminárias e quadros. Vendi meu carro e agora sou uma feliz usuária de coletivos. Meu coração anda tão sossegado que de vez em quando paro pra ouvi-lo só pra me certificar de que ele continua batendo.
Enfim, nenhum sobressalto, nenhuma grande preocupação, nada que me tire o sono.
Daí que meu signo é escorpião, e esse caminho do meio, essa paz, essa alegria, me deixam meio que desesperada. Cadê a paixão, a angústia e o sofrimento?
Como eu não sei onde foram parar esses sentimentos que são ao mesmo tempo meu céu e minha perdição, vou tentar despertá-los à fórceps. A ideia é a seguinte: comemorar a aproximação do Dia dos Namorados com posts em que relatarei experiências pessoais de amor, paixão, atração fatal e falta de noção.
Portanto, se você é algum dos meus ex-namorados, temei! Vem aí uma sequência de textos em que vou escancarar minha vida íntima falando de amores do passado, dando detalhes de performance dos meus ex-parceiros e trazendo à tona revelações bombásticas sobre trepadas selvagens e brochadas desconcertantes.
Mentira, claro. Porque tem coisa que a gente não comenta, ainda mais num blog. Mentira de novo. Porque comentar a gente comenta, sim, mas só com as amigas íntimas, naquelas noites de bebedeira em que não existe coisa mais legal do que espinafrar os ex e as mocréias com quem eles invariavelmente acabam se envolvendo depois que pegam seus banquinhos e saem de mansinho de nossas vidas.
A verdade verdadeira, em síntese, é que falarei de amor, ou da falta dele, usando experiências pessoais.
Se não me der preguiça, aguardem os posts mais passionais da história do Mente Perigosa.
Escrito por Alê às 16h10
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A mulher da minha vida
Existem muitas mulheres queridas que fazem parte da minha vida. Sou uma mulher cercada de mulheres. Esse discurso de algumas marmanjas por aí de que amizade sincera é só com homem, porque mulher é falsa, pra mim não passa de blábláblá.
Tenho amigas de todos os tipos e de todas as idades. Da mais patricinha a mais indiezinha. Da mais dona-de-casa a mais porra louca. Da mais Charlotte a mais Samantha. E embora umas sejam próximas, outras mais distastes, amo todas elas. Divirto-me e aprendo com cada uma delas. E todas são muito importantes pra mim.
Fora as amigas, minha família é predominantemente feminina. Minha mãe tem seis irmãs, e cada uma delas teve muitos filhos, em sua grande maioria mulheres. Embora não tenha um convívio próximo com os parentes, guardo boas lembranças de infância, quando passava uns dias na casa dos meus avós e, cercada por tias e primas, todas deitadas no chão da sala, assistíamos a filmes de terror que depois me faziam ter pesadelos ainda mais apavorantes do que os filmes.
Não tenho irmãos. Só irmãs. Duas. Totalmente diferentes de mim. Eu e a do meio crescemos juntas, dada a pouca diferença de idade entre nós. Éramos inseparáveis, daquelas irmãzinhas que usam roupinha igual, sapatinho igual, fivelinha igual... Hoje ela usa salto alto, eu All Star. Mas o amor e a admiração que tenho por ela são os mesmos de sempre.
Minha irmã mais nova, coitada, pastou na minha mão. Por ter nascido quando eu já tinha uns seis anos, eu judiei da pobre diaba. Hoje somos melhores amigas. Mesmo ela sendo mais nova, por ser mais ajuizada é ela quem me dá conselhos.
Tive também chefes mulheres que viraram amigas. Tive professoras que foram importantes para a minha formação e que marcaram minha vida.
Enfim, sou uma felizarda por ter tantas mulheres incríveis à minha volta.
Mas toda essa introdução foi pra falar da grande mulher da minha vida, da mulher que me fez ser quem sou: minha mãe, que hoje faz aniversário.
Dona Líria é a melhor mulher do mundo, e que me perdoem todas as outras mulheres incríveis que eu conheço. Primeiro por ter tido a coragem de colocar três filhas no mundo. Porque é preciso coragem pra ser mãe. Não tenho nenhuma experiência nesse aspecto, mas estou certa disso. Não basta amor, é preciso também coragem pra passar pela gestação de um filho, depois seu parto, depois sua educação e depois ainda aguentar todas as dores de cabeça que ele fatalmente vai te causar.
Eu mesma causei e continuo causando algumas dores de cabeça pra minha mãe que, amorosa que é, sempre me perdoa.
Minha mãe é uma mulher forte. Lembro-me de tê-la visto chorando pouquíssimas vezes.
Faz o que tem que fazer sempre com um capricho invejável, seja escrevendo uma carta (a letra dela é linda!) seja fazendo uma faxina. Esse perfeccionismo eu me orgulho de dizer que herdei dela.
Tenho boas lembranças de infância, seja dela ajudando na lição de casa, ou participando das brincadeiras com bonecas ou até mesmo aplicando castigos, que hoje me parecem engraçados.
Ela está sempre ao meu lado. Ela esteve comigo quando tive uma suspeita de meningite (foi uma das vezes em que ela chorou), esteve comigo quando eu prestei vestibular, esteve comigo quando eu saí da casa dela, esteve comigo quando meu casamento acabou.... E está sempre comigo. Seja nas ligações quase que diárias só pra saber como estou, seja no chazinho que ela me prepara toda vez que dou uma tossida banal.
Minha mãe é minha linda, meu exemplo, meu amor, meu alicerce. E hoje, quando ela completa mais um aninho (tendo uma pele mais bonita que a minha!), deixo aqui registrada toda minha gratidão a essa que é a mulher que eu mais amo no mundo.
Escrito por Alê às 18h16
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Simplesmente feliz
Nesses dias tenho pensado bastante sobre mim mesma. Em geral à noite, quando volto a pé do trabalho pra casa, começo a refletir sobre o quanto não tenho mais me reconhecido.
Eu, que passei os meus vinte anos chorando, lamentando e me isolando, pareço ter renascido.
Aos vinte, minha vida parecia um sofrimento digno de um dramalhão mexicano. Se eu estava namorando, eu sofria por ciúme, por culpa ou por qualquer outro motivo, real ou inventado pela minha própria imaginação tão fértil quanto doente. Se eu não estava namorando, eu sofria porque estava sozinha e, em geral, levava séculos para me recuperar de uma relação desfeita. Estava sempre apaixonada e/ou sofrendo por alguém. Não me lembro de ter tido momentos de paz, de estabilidade emocional.
Eram crises atrás de crises. Quase perdi o emprego várias vezes, porque tinha dias que eu não conseguia sair da cama e simplesmente não ia ao trabalho, sem dar satisfações. Lembro-me de passar muitos finais de semana trancada em casa, de pijama, com todos os telefones desligados e levantando-me da cama apenas para comer.
E lá se foram sessões de terapia, psiquiatria, cebrilins, fluoxetinas, florais de Bach, acupuntura, rezas e quaisquer outras coisas que me fizessem sentir melhor.
Não vem ao caso a análise que hoje faço desse meu comportamento. O que eu queria dizer é que isso tudo me parece tão distante agora! Aliás, me parece até absurdo. Chega a ser estranho o quanto a gente aprende simplesmente vivendo.
Eu estou hoje numa fase tão radiante que tenho raiva da Alessandra dos vinte anos. Penso no tempo que perdi deitada, chorando, afastada de tudo e de todos, e vejo o quanto existem coisas que só a maturidade é capaz de ensinar.
Estou muito satisfeita com a Alessandra dos trinta. Claro que ainda faço cagadas, erro, sofro, meto o pé na jaca e protagonizo cenas patéticas. Mas encaro isso tudo de uma maneira tão diferente, tão mais leve. Hoje eu não me entrego. Eu tento dar um jeito.
Acho que nunca estive numa fase tão boa. Mais: acho que é a primeira vez em que estou solteira e não estou sofrendo por ninguém. Meu coração está sossegado. Pode parecer uma coisa idiota, mas pra mim isso é uma experiência totalmente nova e maravilhosa.
O dia dos namorados vem aí e uma amiga solteira comentou que combinou de, nessa data, sair com um amigo dela, igualmente solteiro, para não se sentir só. Nesse momento confesso que tive um sentimento meio orgulhoso. Porque me dei conta de que, nesse ano, eu não estarei triste por passar a data sem um namorado. Porque, finalmente, eu estou feliz, e essa minha felicidade não depende de ninguém mais. Ela é só minha.
Escrito por Alê às 19h40
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Gomes, o porteiro
"Tem horas que é bom morar nas quebradas. O gato lá não cai nunca!"
Gomes, porteiro do meu prédio, sobre a falta de energia que afetou os Jardins ontem das 18h às 2h e me obrigou a subir doze lances de escada.
Escrito por Alê às 12h10
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A escolha de Alessandra
A vida é feita de escolhas. Clichê, eu sei.
Algumas escolhas são difíceis. Casar e ter filhos ou permanecer solteira curtindo a vida adoidado? Ter realização profissional ou ganhar dinheiro? Continuar pagando aluguel ou encarar um financiamento imobiliário de 2357 meses? Comprar um iPod Touch com 32GB ou um iPod Classic com 120GB? Skol ou Itaipava?
Porém, algumas escolhas, como a que eu tive que fazer hoje, são muito simples.
A grana tá curta, minha gente. E, se você trabalha numa empresa de turismo corporativo em tempos de crise mundial, o medo de perder o emprego é grande. Sim, porque adivinha qual é a primeira coisa que as empresas cortam quando o cinto aperta? As viagens, lógico! Quem precisa fazer uma viagem de negócios quando existe uma coisa chamada conference call? E, se a empresa de turismo corporativo não vende seu produto, o que ela corta? Gente! Gente como eu.
Sendo assim, o tempo de esbanjar dinheiro com shows chegou ao fim, e hoje tive que fazer minha primeira escolha diante desse cenário: ir ao show do Oasis ou ao show do The Gutter Twins?
Oasis é Liam e Noel. Gutter Twins é Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) e Greg Dulli (ex-Afghan Whigs e atual Twilight Singers).
Preciso dizer mais alguma coisa? Aliás, não preciso nem anunciar a minha escolha, né?
O ingresso já tá na mão.
Ainda não tinha ouvido "Saturnalia", de 2008, único disco do Gutter Twins. Com uma única audição, já digo sem medo que trata-se de um discaço. E, pra citar só uma música, a introdução de violinos de "Circle The Fringes" arrepiou até os cabelos da minha xana.
Esse show promete!
Escrito por Alê às 13h29
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