Agenda de shows
16/10/2009 - Paulinho da Viola - Citibank Hall 23/10/2009 - Prodigy - Via Funchal 31/10/2009 - Exodus + Kreator - Via Funchal 07/11/2009 - Maquinária Festival - Chácara do Jockey 14/11/2009 - Twisted Sister - Via Funchal 21/11/2009 - The Killers - Chácara do Jockey 27/11/2009 - AC/DC - Morumbi 28/11/2009 - Skid Row - Manifesto Bar
Meu aniversário se aproxima e eu já estou aceitando presentes antecipados.
Para fazer essa escorpiana muito, mas muito feliz, basta me dar ingresso para qualquer um dos shows citados.
Ah, aceito pista VIP, viu?
Escrito por Alê às 01h27
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Ai!
No filme "Uma Canção De Amor" há uma cena daquelas em que os fracos não têm vez. Se você for um pouco mais impressionável, fechará os olhos, virará a cara ou soltará um gritinho.
Na Tunísia, uma moça judia vai se casar. Casamento arranjado e coisa e tal. A mãe da noiva pergunta ao noivo como ele prefere que sua futura mulher esteja no dia das núpcias: à oriental ou à ocidental. Ele escolhe à oriental.
Segue-se então a tal cena. Vemos um close na genitália da noiva e tem início um processo de depilação à base de caramelo, que aproxima-se da depilação com cera quente, velha conhecida de nós brasileiras que não somos chegadas numa moita no meio das pernas.
A cena é explícita e longa. Só termina quando o último pentelho é arrancado e a moça fica lisinha como veio ao mundo. É uma cena linda, embora deveras aflitiva.
Isso me fez pensar no quanto nós mulheres sofremos nesse mundão de meu Deus. E não estou aqui falando de casamento arranjado, não. Estou falando do sofrimento físico a que nos submetemos para melhorar aquilo que a genética nos deu.
Quando eu era mais nova, meu único tratamento de beleza consistia em dormir com uma meia fina na cabeça. Eu tinha cabelo ruim e como era uma criança pobre de marré de si, não tinha secador de cabelos nem chapinha à mão pra dar aquele tapa na peruca. Então minha mãe ensinou a mim e a minha irmã uma técnica milenar que passa de geração a geração e consiste no seguinte: lavar os cabelos, secá-los o máximo possível com uma toalha, penteá-los fazendo tantas voltas na cabeça quantas forem necessárias e, então, meter uma meia fina pra segurar a juba. Daí você dorme monstra e acorda princesa, com os fios bons e lisos.
Ok, concordo que esse processo não é doloroso, só humilhante. Porque, né, não era engraçado ficar circulando com uma meia na cabeça na frente do meu pai e da minha irmã mais nova, que devia achar que a gente tinha algum tipo de retardamento.
Mas aí a gente cresce e a coisa só piora. Nascem pêlos por todos os lados e, se você tiver problemas com encravamento dos ditos cujos, você está fodida. Adivinha? Meu caso!
Primeiro comecei a me depilar com um creme da Christian Gray mais fedido que merda. Era pra passar o creme com uma espátula e ficar toda lambuzada por alguns minutos ou até os pêlos derreterem ou até você não suportar mais a ardência. Daí você tinha que manter a calma e tirar tudo bem devagar, senão as pernas ficavam super machucadas. Com química suficiente pra derreter os pêlos, não sei como sobrevivi a essa técnica sem nenhuma sequela grave.
Quando fiquei de saco cheio do creme fedorento, parti pras lâminas. Mas, por causa dos encravamentos, o resultado não ficava nada bom.
Descobri então a depilação com cera quente. Dói, dói mesmo. Mas o resultado era melhor e os pêlos demoravam um pouco mais pra crescer.
Foi aí que surgiu o método que anunciava resultados milagrosos: a depilação definitiva a laser. Juntei uma graninha e lá fui eu, tentar me livrar pra sempre de todos os pêlos possíveis.
Cheguei para a primeira de três sessões sem saber bem o que esperar. Já na recepção a atendente me perguntou como eu gostaria de ser anestesiada. Oi? Quando assinei o contrato não tinham me avisado que doía a ponto de ser necessária anestesia. Mas eu já estava lá e não ia dar pra trás, então perguntei quais eram as opções.
A opção número 1 era uma pomada anestésica que, segundo a atendente, não era lá muito efetiva, sobretudo para a primeira sessão. A opção número 2 era o gelo.
"Manda o gelo!"
Aí foi o seguinte: deitei numa maca pelada da cintura pra baixo e me colocaram sacos de gelo do tornozelo até a virilha. Cara, não consigo pensar em nenhum método de tortura pior do que esse. Sofri calada.
E a coisa toda só estava começando, porque quando eu já não sentia mais nada da cintura pra baixo e tremia como se estivesse convulsionando, começaram as sessões de queimadura a laser. Não sei explicar exatamente a sensação, mas é algo que mistura queimaduras com agulhadas. E, quando o laser chegou à virilha, eu pensei que fosse chorar e gritar pela minha mãe.
Foram três dolorosas sessões e, pra piorar, tive uma reação alérgica que tornou tudo ainda mais complicado. Aí você me pergunta: pelo menos os pêlos sumiram definitivamente? E eu respondo: não. Diminuíram muitíssimo, é verdade. Mas desaparecer não desapareceram, não.
Ajeitar as sobrancelhas é outra tortura. Arrancar pêlos com pinça sempre me faz lacrimejar. Você, homem, faça a experiência. Puxe um, só um pelinho com uma pinça uma vez na vida pra você entender do que eu estou falando.
Como se não bastasse, há ainda as limpezas de pele, as drenagens linfáticas, os tratamentos de pele à base de ácido e até mesmo o uso de salto alto. Tudo isso dói, mas mesmo assim nos submetemos à dor em busca da beleza que nos tornará fêmeas mais atraentes aos olhos dos machos e menos inferiorizadas diante das loiras-peitudas-lambisgóias que atraem todos os olhares.
No momento estou me submetendo a um tratamento de pele à base de ácido. E foi olhando pra minha cara vermelha e descascada que pensei que na próxima encarnação quero nascer homem pra me preocupar apenas com não brochar e manter a barba aparada.
Escrito por Alê às 18h38
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A volta pra casa
(Aviso: esse texto contém spoilers do filme "Amantes")
"... não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a banchá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas tipo preciso-tanto-uma-razão-para-viver-e-sei-que-essa-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá e me lamurio até o sol pintar atrás daqueles edifícios sinistros, mas não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?"
Ao final da sessão do filme "Amantes", esse trecho de conto presente no livro "Morangos Mofados", de Caio Fernando Abreu, me veio imediatamente à cabeça.
No filme, Sandra (Vinessa Shaw) apaixona-se por Leonard (Joaquin Phoenix), que apaixona-se por Michelle (Gwyneth Paltrow), que por sua vez é apaixonada por Ronald (Elias Koteas), um homem casado e com filho. Até aí, uma "Quadrilha" de Drummond.
Pra saber mais sobre o filme, vá até o Cineclick, porque aqui quero tratar apenas das reflexões a que o filme me levou, e não de sua sinopse.
Fato é que saí aos prantos do cinema. O que não é novidade. Quem me conhece ou acompanha esse blog sabe que eu choro até vendo BBB.
A novidade é que vi o filme no domingo e, desde então, ele não me sai da cabeça. Porque a história me fez sofrer e pensar sobre a minha própria vida, sobretudo no aspecto afetivo.
A princípio a identificação com o filme deu-se por eu já ter estado em algumas das situações vividas pelos personagens: já fui a otária que se apaixonou pelo homem casado e que acreditou que o cara fosse largar mulher e filhos pra ficar com ela; já fui o cara que teve que voltar pra casa dos pais depois de um relacionamento desfeito; já fui o cara que precisa de remédios pra manter o mínimo de sanidade; já fui a ingênua que não se toca que o cara não é apaixonado por ela.
Conforme vivemos, vamos desempenhando muitos papéis, muitos dos quais não nos causam nenhum orgulho, é verdade.
E, conforme vivemos, vamos acumulando traumas tão grandes quanto o do cara do filme, que é abandonado pela mulher que não consegue lidar com a bipolaridade que o acomete.
Quando eu tinha uns quatro anos, meus pais compraram a primeira (e única até hoje) casa própria de suas vidas. No primeiro temporal, as telhas voaram pra longe e ficamos todos desabrigados por algumas semanas, tendo que viver da caridade de vizinhos e parentes.
Na adolescência realizei o sonho de passar no Vestibulinho da Escola Técnica Federal de São Paulo. Minha mãe tinha medo que eu viesse sozinha pra São Paulo, pois nunca tinha saído do ABC. Então pediu pra que minha avó me recebesse por uns dias em sua casa, que ficava perto do colégio. Minha avó negou e eu não estudei na Federal.
Anos depois, fracassei duas vezes nas tentativas de ingressar no Largo São Francisco.
Já adulta, peguei um namorado com outra mulher dentro de casa.
Conto tudo isso sem drama, sem querer mostrar que tive uma vida Severina, porque nem é o caso. Minhas pequenas tragédias são piada perto de histórias de miséria, de doença, de acidente e de morte que tantas e tantas pessoas têm que enfrentar todos os dias. Mas também não sou Pollyanna a ponto de dizer que esses eventos não foram nada. Foram sim.
Tanto foram que cada um deles me gerou algum tipo de trauma. Até hoje não posso ouvir um trovão. Fico apavorada e tampo os ouvidos como se fosse criança, lembrando da tarde em que o telhado de casa voou. Até hoje culpo minha avó por não ter tido uma formação melhor do que a que consegui ter e não a visito há anos. Até hoje tenho pavor de um novo fracasso num Vestibular e, por isso, acabei nunca fazendo faculdade. Até hoje eu já começo uma relação pensando no dia em que serei traída e abandonada.
Cada um de nós tem seus pequenos ou grandes traumas, resultados dessas experiências filhas da puta às quais estamos sujeitos pelo simples fato de estarmos vivos.
O que seria, então, um caso de sucesso de vida? Considerando-se que experiências ruins são inevitáveis, uma boa vida seria tomar pauladas, ficar com sequelas e, ainda assim, não desistir de buscar aquilo que se deseja.
Aqui, volto a "Amantes". Quando Leonard descobre que Michelle ficará com Ronald ele, que havia tentado o suicídio por duas vezes, pensa mais uma vez em se matar. Depois de passar alguns minutos observando o mar, ele volta pra casa e pede Sandra em casamento. E chora. Chora porque ama Michelle, não Sandra.
E é aqui que eu queria chegar. Porque quando eu digo que é importante não desistir, apesar dos traumas que colecionamos pelo caminho, não quero dizer com isso que basta continuar vivendo. A acomodação é entregar-se. A saída fácil é uma desistência ainda mais covarde do que o suicídio.
Por isso que, ao final do filme, o texto de Caio Fernando me veio à cabeça. Insistir sem fé nenhuma é mesmo ainda mais autodestrutivo do que uma medida drástica. E aqui eu entendo falta de fé como falta de tesão e de esperança.
Quando o assunto são os relacionamentos amorosos, posso dizer que já tomei muita porrada. E eu sei que poderia, se tivesse me entregado aos meus medos e frustrações, ter me casado com algum homem que me desse segurança e uma vida tranquila. Apareceram alguns, não vou mentir.
Mas, se eu tivesse me casado com alguém só pra me sentir segura, eu cometeria a pior das traições: trairia a mim mesma.
Porque desistir de amar seria pra mim a morte. Não quero me contentar com o mais ou menos, com o confortável, com o sonho americano da casa própria e da família que funciona apenas nas fotos das férias de verão.
Não quero nunca deixar que o peso das frustrações me faça desistir de buscar aquilo que sei que me fará feliz, ainda que o caminho possa ser longo e espinhoso.
Não descansarei enquanto não encontrar um amor que me faça, todos os dias, querer voltar pra casa.
Escrito por Alê às 13h41
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Carta ao grande amor da minha vida
Meu amor,
Onde está você? Não posso mais esperar.
Vejo tantas pessoas egoístas, individualistas, ingratas e chatas encontrando o amor, e cadê você que não vem pra mim? Logo pra mim, que passei a vida inteira dando mais importância ao amor do que a qualquer outra coisa! Não me parece justo esperar tanto.
Não aguento mais. Estou cansada de te buscar todos os dias em cada esquina, em cada sala escura de cinema, no mercado, nas baladas. Cansei de me divertir com os caras errados, de dar pra quem não me ama, de encher a cara enquanto você não vem. Estou pronta pra você. Apareça, por favor.
Não dá mais pra chegar em casa e não ter você pra me abraçar depois de um dia difícil onde tudo é incerteza. Não posso mais ficar sem ter você pra dividir as coisas bonitas que eu vejo, as melodias lindas que eu ouço e as situações que me fazem sorrir. Tenho tanto pra te dizer!
Cadê você pra dormir comigo nesses dias frios? Pra me aquecer com seu corpo enquanto conversamos antes de adormecer?
A varanda já está quase pronta e eu estou esperando você chegar pra nela tomarmos vinho e fazermos os planos de nosso futuro juntos.
Quero poder dividir tudo com você. De que me adianta ver tudo que conquistei se você não está aqui pra comemorar comigo?
Quero que você conheça as pessoas que eu amo e que são importantes pra mim. Tenho certeza que você vai gostar delas e elas de você, porque elas perceberão o brilho nos meus olhos quando você estiver ao meu lado.
Não vejo a hora de saber tudo sobre você! Seu signo, seu time, sua cor preferida, o diretor que mais gosta, a música que te acalma, o lado da cama que você gosta de dormir, o jeito como você penteia o cabelo. Porque tudo em você me interessa. E, puxa, como eu quero sentir seu cheiro!
Pra você tenho guardado meu melhor abraço, meu melhor beijo, meu melhor sexo. Só com você quero satisfazer as minhas fantasias. Só você vai poder me chamar de “sua mulher”. Porque eu serei sua como nunca fui de ninguém.
Venha logo. A casa está perfumada, a cama está arrumada e o inverno está chegando ao fim. Ia ser tão bonito se nos conhecêssemos na primavera, você não acha?
Não me faça esperar mais, meu amor. Tenho medo que todo amor que tenho guardado pra você se transforme em amargura e desesperança.
Já vivi tempo demais sem você. Agora eu quero começar a escrever a nossa história que, eu sei, será a mais linda desse mundo.
Com amor, Alê.
Escrito por Alê às 22h07
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Casamento Silencioso
Hoje fui ver "Casamento Silencioso" esperando por um drama com fundo político. Afinal, tudo que tinha lido sobre o filme era que tratava-se da história de um casal impedido de celebrar seu casamento em função do luto oficial pela morte de Stálin. Comparando com outros filmes romenos recentes, pensei que o filme de Horatiu Malaele estivesse mais para "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" do que para "A Leste de Bucareste".
Ledo engano! Na verdade, como nos outros dois filmes, "Casamento Silencioso" também faz uma crítica ao regime comunista, mas o faz de forma bem distinta e bem pouco sutil, podendo-se dizer que trata-se de uma comédia dramático-fantástica.
De cara, não estava gostando do filme. O diretor carrega tanto nas tintas que estava difícil engolir o circo, o anão, o velho com Alzheimer, os muitos beberrões briguentos, a puta alcoólatra e o casal que trepa em meio a grãos de milho. Tudo muito exagerado e muito farsesco.
Mas aos poucos o filme foi me ganhando e, quando percebi, já estava gargalhando na ótima cena da celebração do casamento em que ninguém pode dar um piu.
A história é, em suma, aquilo mesmo que tinha lido antes de conferir o filme. O luto de Stálin impede que um jovem casal celebre seu casamento. Tendo a festa de casamento como fio condutor, o diretor aproveita para abusar do humor, da bizarrice, do fantástico e de ótimas piadas que não poupam o comunismo e seus pilares.
Uma bela surpresa , eu diria.
Escrito por Alê às 00h04
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Siga-me se for capaz
Eu adoraria que o pecado capital que tá bombando na minha vida fosse a luxúria. Mas na verdade o que tá pegando por aqui é a preguiça mesmo.
Assim, sem muita vontade de atualizar o blog, tenho me dedicado àquele tal de twitter, sabe? Trata-se de um miniblog perfeito para pessoas acometidas pela preguiça, sobretudo a mental, já que ele nem deixa que você tenha ideias geniais que ultrapassem cento e quarenta caracteres. É tudo rápido e rasteiro, pois.
E é lá que você encontra o que tenho feito, o que tenho assistido, o que tenho ouvido e o que se passa nessa minha cabeça cheia de cabelos coloridos.
Mas corra! Antes que o proxy da firma resolva acabar com a minha nova brincadeira.
O link é http://twitter.com/alemarucci.
Escrito por Alê às 23h08
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Ovolactovegetariano também é gente
Sou ovolactovegetariana há mais de cinco anos. Isso significa que eu não como nenhum tipo de carne, mas como ovos, laticínios e mel.
Não comer nenhum tipo de carne significa não comer nem carne vermelha, nem frango, nem peixe, nem frutos do mar. Não, nem kani. Não, camarão também não. Nem gelatina, que tem liga animal. Peito de peru? Claro que não. Nada que tenha exigido o sacrifício de um bicho, ficou claro?
Não perco meu tempo explicando por que sou vegetariana, muito menos tentando converter pessoas ao vegetarianismo. Porque o que é bom pra mim não é necessariamente bom para os outros. Porque, se eu tenho pena de pisar numa formiga, tem gente que acha divertido chutar pombos. E, infelizmente, já descobri que não posso mudar o mundo, então limito-me a fazer o que considero ser a minha parte.
Sou uma vegetariana legal que frequenta churrascarias, restaurantes japoneses e McDonald’s. Claro que acabo comendo mal nesses lugares, mas não deixo de ir a lugar algum por causa de minha opção alimentar.
Dizem que vegetarianos são chatos, mas todos os que conheço são legais e convivem com carnívoros insuportáveis que adoram fazer a piadinha do sofrimento das alfaces. Nem ligo mais. Dou um sorrisinho de escárnio e pronto.
Agora, uma coisa é aguentar piadinhas de amigos, e outra bem diferente é ouvir troça de pândegos desconhecidos. Aí meu sangue italiano ferve.
Foi o que aconteceu um dia, quando fui ao McDonald’s e fiz meu pedido habitual: "um número quatro sem carne, com suco de laranja".
Era sempre a mesma coisa. Ao fazer o pedido, primeiro vinha a risadinha do atendente:
_ Sem carne?
_ É.
Daí o atendente, sem sair do caixa, gritava pro chapeiro:
_ Um número quatro especial sem carne!
Era então a vez do chapeiro gritar para o atendente:
_ Sem carne?
_ É. Sem carne.
E, a essa altura, todo mundo já estava olhando o ET que tinha feito tal pedido sem sentido.
Ok. Eu estava acostumada com isso e seguia indo ao Mac, porque eu sou doida pelo Cheddar McMelt.
Contando essa minha pequena humilhação a uns amigos, alguns diziam que eu deveria pedir o queijo quente. Mas não é a mesma coisa. O queijo quente do McDonald’s é ruim. Não se compara ao cheddar derretido com cebola no pão preto.
Um dia o episódio da gritaria atendente-chapeiro se repetiu e, em seguida, algo novo aconteceu.
Enquanto eu aguardava meu pedido ficar pronto, a gorda que estava atrás de mim na fila fez o pedido dela: "um número quatro normal, porque eu sou normal".
Cara! Cara! Meu nome é Alessandra Sutto Marucci. Sutto é italiano. Marucci é italiano. Meu signo é Escorpião. Meu ascendente é Áries. Minha Lua é Escorpião. E meu sangue é quente.
Desci do salto, rodei a baiana e perdi a compostura. Soltei toda a sorte de impropérios. Chamar a normal de gorda foi a coisa mais gentil (e mais pré-escola) que fiz.
Sabe, eu não preciso passar nervoso na hora de comer, né? Toda vez que eu ia ao Mac eu já ia meio com dor de barriga, antevendo a gozação iminente. E aí, depois do lance com a baleia comedora de carne, decidi que eu não quero morrer de nervoso antes dos quarenta.
Não deixei de ir ao Mac mas, desde então, peço: "um número quatro, com suco de laranja".
Ninguém me olha torto, ninguém faz piadas e eu não passo nervoso. Quando o lanche chega eu tiro a carne e o como. Simples assim.
Vegetarianos xiitas provavelmente vão dizer que eu estou jogando um bicho no lixo. É verdade. Mas era isso ou adquirir uma gastrite nervosa e ser presa por agressão.
Não deixei de comer o lanche que gosto e não tive que voltar a comer carne pra isso. Estou em paz com minha consciência e em paz com a sociedade.
Escrito por Alê às 13h22
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Como complicar um ato simples ou transformando prazer em tortura
Antes, o ato de ir ao cinema, para mim, era assim: alguém me falava de um filme legal, eu via onde estava passando e ia assistir.
Hoje, ir ao cinema virou um processo bem mais complicado. Sexta-feira eu chego no trabalho, entro no site do Guia da Folha e vejo quais são todas as estreias, pré-estreias e mostras da semana.
Depois de ler todas as críticas, determino o que me interessa assistir baseada no diretor, no roteirista, nos atores, nos prêmios recebidos pelo filme ou em tudo isso ao mesmo tempo.
Copio então a programação de cada um dos novos filmes que me despertaram interesse e vou colando no meu arquivo "cinema.txt", que eventualmente já contém os filmes em cartaz há mais tempo que eu ainda não tenha conseguido conferir. Aliás, se for o caso, atualizo, na sequência, a programação desses filmes que ainda não vi. O passo seguinte é excluir as salas do Cinemark, as da Playarte e todas as que ficam longe demais da Paulista.
Pego a lista completa e já filtrada, jogo do Word, boto os nomes dos filmes em negrito, imprimo, dobro a folha em dois e meto na bolsa.
De acordo com minha disponibilidade, vou encaixando os filmes durante a semana, principalmente de segunda a quinta, quando as salas são mais vazias e a turma do oba-oba está em casa vendo TV.
Perto da hora de sair do trabalho checo minha lista, escolho filme, horário e lá vou eu, geralmente sozinha, porque acertar filme, horário e local com outra pessoa é algo que complica ainda mais o processo.
Chegando ao cinema, o primeiro passo é comprar o ingresso. O segundo, ir ao banheiro, mesmo que eu tenha ido ao banheiro imediatamente antes de sair do trabalho. Isso porque, se não vou ao banheiro no cinema, fico com a nóia de que ficarei apertada bem no meio da sessão.
O terceiro passo é comprar um expresso, puro, para viagem. Isso porque, se eu não compro um café, fico com a nóia de que sentirei sono durante a projeção.
Depois de comprar ingresso, mijar e pegar o café, entro na sala, que é quando inicia-se a etapa mais difícil: escolher um lugar longe de pessoas que falam, longe de pessoas que atendem celular e longe de pessoas que chutam a poltrona da frente.
É um processo totalmente intuitivo mas, dada minha prática cinéfila, já tenho conseguido identificar pessoas-problema com certo sucesso.
Assim, me afasto de jovens em turma. Também me afasto de casais, de pessoas portando sacos de pipoca e, sobretudo, me afasto de grupos de velhinhas. Essas sempre comentam os filmes entre si e, pior, interagem com a película. Sabe aquele tipo de gente que solta interjeições durante a projeção? Velhinhas adoram fazer isso.
Minha prioridade é sentar na última fileira, onde ninguém será capaz de chutar minha poltrona. Porém, se na penúltima fileira houver um dos grupos supracitados, a última fileira é imediatamente descartada.
Em algumas salas, onde há fileiras centrais e laterais, já vou logo pras laterais, em geral desprezadas pela turma da bagunça.
Escolhido o local, sento, acomodo minha bolsa na poltrona ao lado, boto meu café no porta-copos e rezo pra que não seja necessário soltar nenhum "shiiiiiiiiii" durante a projeção.
Uma sessão feliz é uma sessão em que o filme é bom, ninguém me chuta, sacos de pipocas não são amassados e não se houve nenhum piu na sala.
Uma sessão feliz tornou-se uma coisa muito, muito rara.
Escrito por Alê às 15h35
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Especial Dia dos Namorados: sobre o que não pode ser deixado para trás
Eu acredito que é possível amar mais de uma vez na vida, bem como também acredito que há pessoas que passam pela vida sem nunca conseguirem amar ninguém de verdade. Assim, por mais que hoje eu esteja sozinha, considero-me uma privilegiada por ter amado mais de um homem e fico feliz por acreditar que virei a amar de novo. Por muito tempo eu tive raiva de Bono pelas seguintes palavras: And love is not the easy thing The only baggage you can bring Is all that you can't leave behind Toda vez que alguma relação minha chegava ao fim eu pensava que Bono não sabia de nada. Pensava que a única bagagem que carregamos é o peso de nossos fracassos, e que o amor não só fica pra trás como acaba dando lugar ao ódio. Demorei muito tempo pra entender que vão-se os amados, mas fica o amor, que nos transforma. Não é preciso que a relação dure para sempre. Mas é preciso que o amor seja preservado. Porque as histórias não morrem, elas permanecem vivas em nossas lembranças, e é importante pensar nelas com doçura para que não passemos a vida remoendo mágoas, sem conseguirmos seguir em frente. Roberto Carlos sempre soube das coisas. "Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi", disse uma vez o Rei. Em última instância, é isso mesmo. Passar uma vida não se entregando ao amor por medo de sofrer deve ser uma coisa muito triste. E é por isso que eu ainda posso quebrar a cara mil vezes, mas continuo sem medo de começar uma nova história, com alguém novo, tudo de novo. Trago comigo os amores que tive, por isso não me sinto só nesse Dia dos Namorados. Termino esse meu especial com uma das mais belas canções de amor já feitas. Uma canção para uma história que acabou, mas cujo amor foi preservado seguindo os ensinamentos de Bono. A todos, um feliz Dia dos Namorados. Outra Vez Roberto Carlos Você foi o maior dos meus casos De todos os abraços, o que eu nunca esqueci Você foi, dos amores que eu tive, O mais complicado e o mais simples pra mim Você foi o melhor dos meus erros A mais estranha história que alguém já escreveu E é por essas e outras que a minha saudade Faz lembrar de tudo outra vez Você foi a mentira sincera Brincadeira mais séria que me aconteceu Você foi o caso mais antigo O amor mais amigo que me apareceu Das lembranças que eu trago na vida Você é a saudade que eu gosto de ter Só assim sinto você bem perto de mim outra vez Esqueci de tentar te esquecer Resolvi te querer por querer Decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade Sem nada perder Você foi toda a felicidade Você foi a maldade que só me fez bem Você foi o melhor dos meus planos E o maior dos enganos que eu pude fazer Das lembranças que eu trago na vida Você é a saudade que eu gosto de ter Só assim sinto você bem perto de mim outra vez
Escrito por Alê às 15h14
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Especial Dia dos Namorados: sobre o amadurecimento
Eu devia estar com uns 23 anos quando terminei o namoro com o Xera.
Passado o sofrimento pelo término (sim, quem toma a decisão de terminar também sofre), eu fui em busca de todas aquelas experiências que eu queria vivenciar. Fui em busca de todo um mundo novo que eu ainda não conhecia. Só que esse mundo novo se apresentou bem mais cruel do que eu o tinha imaginado.
Tive que lidar com indiferença, traições, abandono, falta de respeito. Conheci as brochadas, o sexo sem paixão, o sexo sem amor. Engoli sapos, experimentei a falta de amor próprio, a baixa auto-estima.
Eu não conhecia nada disso, e lidar com essas coisas novas foi muito difícil.
Eu vinha de um amor correspondido onde eu não só me sentia amada como também respeitada. Nunca tinha enfrentado grandes dificuldades durante o namoro. O Xera, pra evitar conflitos, sempre me dava razão, mesmo quando eu não a tinha.
Então eu posso dizer que boa parte das experiências ruins que eu tive depois foram por causa da minha falta de habilidade pra lidar com situações que até então me eram desconhecidas. Eu tinha sido mimada demais , e entrei para o jogo amoroso adulto completamente despreparada.
Nesse período me apaixonei algumas vezes e sempre quebrei a cara. Fazia cagadas atrás de cagadas. Como assim eu não tinha sempre razão? Como assim eu tinha que dar o braço a torcer? Como assim eu tinha que fazer concessões? Como assim eu tinha que negociar?
Foi uma fase foda, e eu aprendi tudo na base da porrada.
Não conseguia me relacionar de forma adulta, e isso fazia com que todos os meus relacionamentos fracassassem, mesmo quando meu amor era correspondido.
Entrei numa espiral de tristeza que me levou para a terapia e para os antidepressivos. Passei boa parte dos meus vinte anos na cama, chorando.
Eu simplesmente não conseguia me adaptar a esse novo mundo.
Demorei muito tempo para encontrar paz e equilíbrio na minha vida amorosa. Aliás, isso é muito, muito recente, conforme contei num post semanas atrás. Precisei de muitas paixões e um casamento desfeito para chegar lá.
Hoje eu olho para trás e vejo que cada cara que passou pela minha vida deixou pelo menos alguma coisa boa. Antes eu não conseguia ver isso, porque eu tinha uma tendência a me vitimizar que fazia com que eu só enxergasse as coisas ruins.
Às vezes eu penso como seria a minha vida se eu tivesse levado o namoro de sete anos adiante mas, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca me arrependi da decisão que tomei.
Anteontem assisti ao filme "Divã". A personagem da Lília Cabral, no começo do filme, durante uma briga com o marido, questiona se ela teria feito a melhor escolha casando-se com ele, e compara as escolhas que fazemos com aquela brincadeira do coelho que escolhe uma toca (ou algo assim). Ela se pergunta se teria escolhido a toca certa. E, mais, demonstra curiosidade sobre o que haveria nas outras tocas. Reservariam elas melhores surpresas? Uma vida melhor e mais feliz?
Gostei dessa comparação, e a minha conclusão é a mesma da personagem de Lília: não existe toca certa e toca errada. Nossa vida é uma sucessão de escolhas. Umas revelam-se boas. Outras, ruins. Mas a qualquer momento podemos mudar de toca e seguir traçando nosso caminho sempre em busca do que consideramos melhor pra gente. Basta ter coragem e amor pela vida.
Arrependo-me de algumas escolhas que fiz, sim, mas no final elas fizeram de mim a pessoa que sou hoje.
O que eu deveria ter levado como lição a partir das experiências amorosas dos vinte anos? Acho que, basicamente, uma coisa: no amor, não há culpados.
E eu levei essa lição para a vida? Sim.
Boa parte do meu sofrimento com as experiências amorosas veio do fato de eu sempre procurar um culpado.
Num primeiro momento, eu sempre culpava o outro. Ele é que era um desalmado, um cretino, um filho da puta.
Passada a raiva, eu é que me tornava a culpada. Eu que não tinha demonstrado amor suficiente, eu que tinha descuidado da relação, eu isso, eu aquilo.
Isso só me levou à depressão. Nunca me ajudou a salvar uma relação nem a viver em paz depois que ela terminava.
Demorou pra que eu aprendesse que não é necessário encontrar culpados, e sim descartar aquilo e aqueles que não nos servem e tentar perceber o que pode ser melhorado em nós mesmos.
É isso que tenho feito de uns anos para cá e é isso que tem me ajudado a, enfim, amadurecer.
Escrito por Alê às 11h11
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Especial Dia dos Namorados: o primeiro namorado
Depois de todas as mazelas amorosas da infância e adolescência, eis que eu ingressei no mundo do namoro com o pé direito. Não sem antes ter um certo trabalho.
Xera era o apelido dele (daqui pra frente, nada de nomes). Ele era do primeiro ano de mecânica. Eu, do primeiro ano de processamento de dados. Ele era pouca coisa mais velho do que eu. Tinha repetido o primeiro ano, portanto era veterano. Eu, bichete.
Depois do fatídico baile de formatura, eu e Xera nos tornamos muito amigos. Conversávamos muito durante as aulas vagas. Ele tocava guitarra, gostava de rock e era engraçado. Moreno, alto e com uns olhos verdes pelos quais me apaixonei sem me dar conta. Quando percebi, já estava matando aulas só pra ficar ao lado dele.
Um dia, ele me chamou para ir a um show do Biquíni Cavadão na Cidade Universitária. Topei, claro.
Era um domingo e eu passei quase que o show todo com minha irmã. O Xera e o Ananias, amigo nosso, tinham se mandado sei lá pra onde com uma garrafa de pinga.
O show já estava no fim e eu tinha perdido minhas esperanças de que rolasse algo entre nós. Mas aí ele apareceu, me pegou pela mão, e me levou para trás de umas árvores. Ali, na USP, eu descobri o que as pessoas chamam de "química". Nunca pensei que um beijo pudesse desencadear tantas reações físicas, psicológicas e hormonais. A coisa pegou fogo e foi a primeira vez que um cara meteu a mão nos meus peitos.
Fiquei o resto da tarde num exercício de beijar e afastar mãos de lugares até então proibidos. É bom lembrar que eu ainda era crente, portanto mão no peito, mão na bunda e mão dentro da calcinha realmente não estava nos meus planos.
Fomos embora de namoradinhos e, a partir de então, eu não pensava em nada além do Xera. Tive crises de consciência por causa das mãos bobas e tal, mas eu não via a hora de ficar com ele de novo.
Só que o menino me deu uma canseira da porra. Na segunda-feira, no colégio, foi como se nada tivesse acontecido. Éramos os mesmos amigos de sempre.
Um tempo depois, começamos a ficar escondidos. Primeiro no ponto de ônibus, depois na pista de skate, nas quadras e, enfim, num parque em Santo André, que virou nosso esconderijo. Lá tínhamos nosso canto e nossa árvore que, se falasse, teria muita história pra contar. Foi ali que Xera começou a tentar me convencer a ir pra casa dele. E eu resistia tanto pela questão religiosa quanto pelo fato de ele nunca me assumir como namorada.
Aliás, o fato de ele não me assumir fez com que eu sofresse feito uma pobre diaba. Nunca contei para as minhas amigas que estava ficando com o Xera, porque sabia que elas iriam me censurar, me dizer que ele não gostava de mim e que só queria se aproveitar. E isso era o tipo de coisa que eu não queria ouvir, por mais que eu começasse a acreditar que essa era a verdade.
O fim do ano se aproximava e Xera corria o risco de bombar e ser jubilado, porque era assim que funcionava na ETE. Se você repetisse duas vezes o mesmo ano, você estava fora.
Entrei em pânico com a perspectiva de não ver o Xera nunca mais. Comecei a dar aulas de matemática pra ele e, feito uma otária, fiz todos os milhares de exercícios de limite, derivada e o caralho que ele era obrigado a entregar na recuperação. Ao invés de ir curtir as minhas férias, fiquei dando todo o suporte de que ele precisava e, no dia em que o resultado das provas de recuperação seria anunciado, lembro-me de que fui até o colégio pra acabar logo com minha angústia. Ele tinha passado, e eu pude enfim respirar aliviada sabendo que o veria de novo no ano seguinte.
E foi logo no começo do segundo ano que rolou o que contei aqui no post anterior. Ainda não tínhamos assumido nada mais sério, mas eu não tive mais como resistir.
Não sei o que houve, mas a partir de então começamos a namorar sério, e ficamos juntos por sete anos.
Eu não podia ter tido um primeiro namorado mais especial. Funcionávamos tão bem juntos que quase nunca brigávamos, exceto por uma ou outra crise de ciúmes de ambas as partes.
Minha família amava o Xera, eu era louca por ele, e ele por mim.
Crescemos juntos. Juntos começamos nossas vidas profissionais, juntos compramos nosso primeiro carro, juntos fizemos muitos planos de vida a dois.
Minha vida era, então, um mar de tranquilidade. Mas, no último ano de namoro, comecei a viver uma grande inquietação.
Há muito tempo eu já não frequentava mais a igreja e alguns "valores" tinham ficado para trás. Aquilo que eu julgava bom, continuei carregando comigo. As amarras, essas ficaram para trás.
Notei que meu destino estava traçado: eu me casaria, teria filhos e viveria uma vida feliz com o Xera. E isso não era o que eu queria pra mim. Não naquela época.
Eu tinha vinte e poucos anos e achava que existia um mundo todo a ser descoberto. Um mundo que eu não descobriria se casasse com meu primeiro namorado. Eu sentia uma necessidade de liberdade, de vida, de experiências que eu sabia que não teria se continuasse levando aquele namoro adiante.
Por mais que eu amasse o Xera, decidi terminar com ele. Foram meses e mais meses de sofrimento, pensando em como faria isso.
Uma noite, enfim, criei coragem. Eu não sabia como explicar pra ele o que eu estava sentindo, mas estava convicta de que terminar era o melhor a ser feito.
Choramos juntos por toda a noite. Choramos juntos por toda a madrugada. Foi a decisão mais dolorosa da minha vida até então e eu fiquei arrasada por fazer aquele homem chorar.
Por muitos dias me senti culpada pelo sofrimento do Xera. Me achei uma pessoa horrível por fazê-lo passar por tudo aquilo. Mas, em nenhum momento, voltei atrás. A decisão estava tomada, e era definitiva.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência do primeiro namoro? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Nem sempre os caras querem só sexo.
2) Uma linda história de amor não precisa do "até que a morte nos separe".
E eu levei essas lições para a vida? Mais ou menos.
Eu poderia ter desistido do Xera por termos ficado meses só com as safadezas no parque. Às vezes tudo que você quer é um pouco de safadeza mesmo, mas não era meu caso na época.
Eu queria namorar. Com a enrolação toda, se eu tivesse partido do princípio de que o Xera só queria sexo e tivesse desistido, eu teria perdido a chance de dividir minha vida com um desses raros homens que fazem com que a gente se sinta realmente especial.
Num mundo em que queremos tudo agora, em que não sabemos esperar por nada e em que é mais fácil acreditar em clichês do que batalhar pelo que se deseja, talvez as grandes histórias de amor estejam morrendo. Mas eu tenho resistido à tentação de ficar com as respostas fáceis e continuo correndo atrás dos meus sonhos.
A gente cresce acreditando que uma história de amor bem sucedida é uma história de amor que dura para sempre. Confesso que, toda vez que estou amando, alimento a esperança de que, enfim, eu tenha encontrado um amor pra toda vida.
Mas, deixando de lado esse "viveram felizes para sempre" dos contos de fada, o que existem são histórias de amor lindas e que dão certo, sim, ainda que não durem até a velhice.
Minha história com o Xera é um exemplo disso. Eu jamais poderia dizer que a gente não deu certo. Por sete anos, fomos um casal feliz. Nosso amor foi real, recíproco e lindo como um conto de fadas. Como dizer que não deu certo?
"Até que a morte nos separe" pode significar muito mais uma vida de comodismo do que de amor. E eu fico com o amor, sempre.
Escrito por Alê às 15h00
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Especial Dia dos Namorados: sexo antes do casamento
Falar da minha primeira experiência sexual exige que eu leve em conta dois aspectos: ignorância e formação religiosa.
Sobre a ignorância.
Quando eu era criança, ficava realmente intrigada quando via cenas de casamento em filmes ou novelas. Na minha cabeça, os bebês vinham ao mundo não como consequência de um ato sexual (que então eu nem sabia que existia), e sim de uma cerimônia de casamento. Era como se o bebê estivesse sempre ali, esperando pra nascer. Quando ele via a cerimônia acontecendo, era dada a largada. Então eu não entendia como é que os bebês distinguiam um casamento de verdade de um casamento de ficção. Quem dizia pra eles que o casamento de novela era encenado e que, portanto, não valia?
Na quarta série, tive aulas de educação sexual. Todo aquele papo de pênis e vagina me dava certa preguiça. O mecanismo todo me parecia muito complicado, e engraçado mesmo era ver a professora botando uma camisinha na banana.
Em casa sexo era tabu. Meus pais não falavam sobre o assunto. Então, quando enfim comecei a me interessar pela coisa toda, foi a TV que se encarregou de me ensinar tudo que eu sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar.
Foi numa cena de nu frontal em um filme qualquer que vi um pau pela primeira vez. Lembro-me que achei engraçada a existência de pêlos na genitália masculina. Sei lá. Nunca tinha pensado que eles pudessem existir. O resultado me pareceu bem esquisito.
Minhas principais referências sobre sexo vinham de filmes como "A Lagoa Azul" e "Porky’s". E eu achava que já sabia o bastante: menino pelado, menina pelada, vai-e-vem, vai-e-vem, suor, vai-e-vem, vai-e-vem, gemidos, vai-e-vem, vai-e-vem, caras de dor, vai-e-vem, vai-e-vem, caras de satisfação.
É, parecia fácil.
Sobre a formação religiosa.
Eu era uma garotinha crente. E, na igreja, você aprende que existe o céu e existe o inferno. Existe Deus e existe o Diabo. Existe o certo e existe o errado.
O errado é mais conhecido como pecado. E, se você pecar, você está fodido, porque o seu destino será torrar no fogo do inferno com o tinhoso te espetando a bunda com um tridente por toda a eternidade. É isso que se aprende na igreja, e era nisso que eu acreditava.
Na extensa lista de pecados possíveis, consta o sexo antes do casamento. Ou seja, trepar antes de botar aliança significa danação eterna no andar de baixo.
Só que, como nas leis dos homens, existem brechas também nas leis de Deus. E foi uma dessas brechas que usei pra me salvar da culpa e condenação pelo pecado da luxúria.
Me ensinaram na igreja que, para Deus, não existe pecadinho e pecadão. Tudo que é errado é pecado e ponto, sendo que não existe graduação nem para o perdão nem para a condenação. Oras, se colar na prova e transar antes do casamento dava na mesma, achei que então eu não precisava esperar pelo matrimônio pra conhecer os prazeres da carne. Afinal eu já errava em tanta coisa mesmo! Uma a mais não faria assim tanta diferença pra mim no juízo final.
E foi assim, ignorante e carola, que me enfiei debaixo dos lençóis com meu primeiro namorado, pouco tempo depois de ter dado meu primeiro beijo.
Porque comigo é assim: 8 ou 80. Se demorei mais do que todo mundo pra beijar na boca, por outro lado fui a primeira da turma a perder, aos dezesseis anos, a virgindade.
Não teve nada de "A Lagoa Azul" na minha primeira vez, mesmo eu sendo completamente apaixonada pelo meu namorado, que tinha certa experiência apesar de ter a mesma idade que eu. Foi tudo assustador, doloroso e constrangedor.
A primeira vez não tem glamour, não tem sensualidade, não tem tesão. A primeira vez não passa de uma experiência. Você está ali pra aprender como a coisa toda funciona, e não pra se divertir.
Pelo menos foi assim pra mim.
Hoje eu fico muito feliz por ter vivido esse momento com um cara que me amava tanto quanto eu o amava. Isso é muito especial. O fato de ele ter sido carinhoso, paciente e de ter ficado comigo por sete anos fez toda a diferença para a minha formação emocional.
Mas na época eu não tive toda essa clareza de raciocínio, não. Assim que pude enfim vestir as minhas roupas, fui para o banheiro e chorei como talvez eu nunca tivesse chorado antes.
Chorava de culpa. Culpa por ter pecado. Naquela hora, a teoria do pecadinho e do pecadão não fez diferença alguma. Eu estava certa de que tinha errado, de que o que eu tinha feito era muito feio e de que Deus nunca me perdoaria. Chorava de vergonha. Vergonha de pensar em encarar meus pais. Não me sentia mais digna do amor deles.
Sofri tudo em silêncio, porque eu me sentia tão criminosa que não tive coragem de me abrir com ninguém.
E por um bom tempo foi assim: eu transava e chorava, transava e chorava, transava e chorava... Embora eu ainda sentisse a culpa cristã pesando sobre mim, eu começava a achar cada vez melhor um outro tipo de peso: o do corpo do meu namorado sobre o meu.
Não sei como foi, mas um dia a culpa foi embora. Bem depois da ignorância (porque o que é bom a gente aprende rapidinho), mas foi embora.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência da minha primeira transa? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Nunca queira aprender com a TV nada além de receitas culinárias.
2) Nunca parta do pressuposto de que você se casará um dia.
E eu levei essas lições para a vida? Opa!
TV hoje só pra ver os jogos do tricolor e a Dança dos Famosos. Depois que eu constatei que esse negócio do homem meter na mulher e ambos gozarem juntinhos instantaneamente só existe na cabeça de roteiristas, desisti da TV enquanto educadora e me joguei nas aulas práticas.
Esperar pelo casamento para poder transar ou fazer qualquer outra coisa equivale ao que minha avó chamava de "contar com o ovo no cu da galinha". Se eu tivesse seguido o que a cartilha da igreja manda, hoje eu seria uma bela virgem de 32 anos. E de que serviria a minha castidade? De motivo de galhofa. Ou de pena. Ou de insanidade. Ou de tudo isso ao mesmo tempo. Susan Boyle está aí e não me deixa mentir.
Teria perdido toda a minha juventude à espera da subida ao altar. E isso sim seria um pecadão!
Escrito por Alê às 23h52
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Especial Dia dos Namorados: o primeiro beijo
Era o fim dos anos de pureza e inocência. Olhares não mais me satisfaziam. Cartas não mais me satisfaziam. Mãos dadas não mais me satisfaziam. Eu queria é beijar na boca.
Ver repetidamente filmes como "A Garota de Rosa Shocking", "Dirty Dancing", "Admiradora Secreta" e "Grease" fazia-me ficar suspirando pelos cantos, idealizando situações românticas e, sobretudo, sonhando com meu primeiro beijo.
Imaginei esse primeiro beijo de mil formas diferentes e com mil caras diferentes. Alexandre era o número um em meu imaginário, mas vieram também John Travolta, Patrick Swayze, James Spader, o Neil do Dominó...
Nessa época era comum eu falar sozinha, travando diálogos com cada um dos beijáveis, até que a conversa culminava naquele beijo estilo Burt Lancaster e Deborah Kerr em "A Um Passo Da Eternidade".
Eu estava então na oitava série e todas as minhas amigas já tinham beijado. Foi aí que bateu o desespero.
Depois que terminei com o Alexandre, me interessei por um cara que trabalhava numa quitanda (!). A quitanda ficava no meu caminho para a escola e todo dia, quando eu passava ali em frente, o rapaz ficava me olhando.
Uma amiga da minha classe começou a namorar o primo do verdureiro. Daí pra eu conseguir um primeiro encontro com o rapaz foi um pulo.
Não me lembro dos trâmites. O que ficou na minha memória foi a cena de eu na quitanda com o rapaz pegando na minha cintura e eu dizendo que precisava ir embora. Espanei! Por algum motivo, não achei nada romântico estar em meio a alfaces e chicórias beijando um cara que eu mal conhecia. Fugi de lá sem beijo nenhum e, a partir de então, mudei o caminho pra chegar à escola.
Pouco tempo depois conheci, em Itanhaém, um feirante (!) cuja família era amiga da minha tia. Pense num cara gato. O Márcio (nunca me esqueci do nome dele) era mais. Devia ter uns 20 anos, moreno, alto, bonito e sensual. Com certeza seria a solução para o meu problema.
Devo tê-lo visto três ou quatro vezes só, sempre de sunga, durante essas minhas férias na casa de praia da minha avó. Foi o suficiente pra eu me apaixonar e acreditar que ele também estava apaixonado por mim. Quando voltei pra São Paulo, fiquei ansiosa à espera da próxima ida à Itanhaém (onde a família dele também tinha casa).
Dias depois minha irmã voltou ao litoral com a parentada e eu, que estava me preparando para o Vestibulinho pra ingressar na ETE Lauro Gomes, acabei ficando em São Paulo pra estudar. E eis que ela volta me contando que tinha ficado com o Márcio.
Meu mundo caiu mais que o do Maysa. Chorei noites inteiras em silêncio. Acho que foi minha primeira desilusão amorosa. E, como se isso não bastasse, minha irmã, mais nova que eu, tinha beijado na boca. Eu continuava virgem, mas pelo menos consegui entrar na ETE.
Quinze anos e sem nenhum contato íntimo com um menino. Sentia-me diminuída, humilhada, um ET, uma pária social.
Mas aí veio aquele evento que na época substituía a atual micareta: o baile de formatura. Não o meu, claro. Mas o da turma que tinha se formado no ano anterior à minha entrada no colégio. Como a Laís-amiga-de-fé-irmã-camarada conhecia um mocinho que tinha se formado, acabamos indo ao baile.
Eu já tinha conhecido o rapaz porque, mesmo depois de formado, ele tinha ido ao colégio algumas vezes em função do estágio, que era obrigatório para a obtenção do diploma. E a Laís tinha me contado que ele (olha só, nem me lembro do nome do cara!) estava interessado em mim. Como eu a essa altura estava interessada em beijar quem quer que fosse, dei uma banana ao Burt Lancaster e fui ao baile disposta a tudo.
Fato é que o beijo aconteceu e, puta merda, como eu odiei aquilo tudo! Eu não tinha parâmetros para comparação, mas aquela língua na minha boca, no meu nariz, no meu olho e na minha orelha não podia ser uma coisa boa. Aliás, deve ser por isso que até hoje odeio língua dentro da minha orelha. Traumatizei.
Que fiz eu? Pedi pra sair, lógico. Falei que ia fazer um xixi e não voltei nunca mais.
Fiquei me esgueirando pela festa até que encontrei o James, do terceiro ano de mecânica, veterano que me protegia dos trotes. Era um negro lindo e divertido que em pouco tempo de colégio já tinha se tornado um grande amigo.
Conversa vai, conversa vem e, quando vi, já estávamos nos beijando. E dessa vez, sem língua nos buracos errados, eu senti o que deve ser sentido em todo e qualquer beijo: um friozinho no estômago.
Mas aí já viu, né? Eu levei séculos pra ficar com um menino e, quando finalmente acontece, eu meto o pé na jaca no melhor estilo Alessandra de ser e fico logo com dois em uma só noite. E olha que eu ainda nem bebia!
Com medo do primeiro rapaz me pegar beijando o segundo e eu ficar mal falada na escola, fugi também de James.
E assim, em fuga, terminou a noite do meu tão sonhado primeiro beijo.
O que eu deveria ter levado como lição a partir dessa experiência no baile de formatura? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Assistir a filmes românticos não leva ninguém a lugar nenhum.
2) Nunca idealize nada nessa vida, porque você fatalmente se frustrará.
E eu levei essas lições para a vida? Lógico que não.
Na verdade as duas lições são uma só, porque é em função dos filmes românticos que passamos a idealizar pessoas e situações.
Apesar do meu primeiro beijo ter ficado a anos-luz de distância daquele que eu tanto tinha sonhado, nunca deixei de ver os filmes e idealizar tudo aquilo que se refere ao amor.
Assim continuo esperando meu príncipe encantado, aquela entidade que me fará viver feliz para sempre. Aquele cara que, tal qual um Richard Gere em "Uma Linda Mulher", me aceitará como eu sou e me tirará do meu mundo solitário a bordo de uma limusine branca, ao som de "At My Most Beautiful" (no filme era "It Must Have Been Love", mas eu prefiro R.E.M. a Roxette e, como o sonho é meu, a trilha sonora também é minha, dá licença?).
E, na boa, prefiro continuar com esses sonhos ingênuos e com meus filmes açucarados. Porque no dia em que eu assumir que o que existe na vida real são beijos com língua na orelha e sexo em meio a verduras, o mundo se tornará um lugar muito triste pra se viver.
Escrito por Alê às 13h06
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Especial Dia dos Namorados: o amor platônico
Passei a maior parte da minha infância e começo da adolescência apaixonada por um único garoto: o filho do pastor da igreja que eu frequentava. Recordo-me dessa paixão como uma das experiências mais bonitas e gostosas que já vivi.
Não me lembro como foi que tudo começou. Só sei que, um dia, me peguei esperando ansiosamente pelo domingo, e não para estudar a Bíblia, mas sim para ver Alexandre, o filho do pastor. Não demorou para que eu passasse todos os dias sonhando com o domingo, quando então ia à escola dominical pela manhã e ao culto à noite.
Chegado o domingo, a cena se repetia. Eu me sentava de forma a poder ver Alexandre, mas nunca conseguia fazer contato visual com ele. Eu era tão tímida que só o observava quando tinha certeza de que ele não me notaria.
Assim, um domingo feliz era quando eu conseguia dizer "oi" para ele. Ia pra casa com meu coraçãozinho transbordando de amor. Repassava mil vezes a cena do cumprimento na minha cabeça e tentava decifrar significados ocultos em qualquer movimento que Alexandre tivesse feito.
Também não sei como se deu, mas um dia percebi que Alexandre também me observava.
A partir de então comecei a fazer de tudo para chamar a atenção dele, para impressioná-lo. Foi nessa época que estudei a Bíblia alucinadamente porque, nas tardes de domingo, havia reuniões da UPA (União Presbiteriana de Adolescentes) e, nessas reuniões, rolavam uns debates e umas gincanas com perguntas bíblicas. E eu sabia muito, porque passava a semana me preparando para que Alexandre se apaixonasse pela minha sabedoria. Em um ano cheguei a ler a Bíblia inteira, do Gênesis ao Apocalipse, livro por livro, capítulo por capítulo.
Os momentos em que conseguia chegar mais perto de Alexandre eram justamente nessas reuniões. Eu chegava cedo e sentava-me sempre onde houvesse um espaço pra que ele pudesse se sentar ao meu lado. Às vezes dava certo, e eu ficava tão nervosa que não conseguia nem me mover na cadeira, com medo de que ele notasse minha respiração ofegante.
Foram anos assim, nesse amor velado.
Um dia, começou a rolar uma troca de correspondências entre jovens presbiterianos. Não me lembro bem como era, mas a gente tinha que enviar postais com mensagens bíblicas para um número x de jovens, de forma que ia-se formando uma corrente. Até que, certa tarde, chegou pelo Correio uma carta do Alexandre para mim. O postal, uma mensagem bíblica e, em letras miúdas num cantinho, um versículo de Cantares de Salomão. Pra quem não sabe, o livro de Cantares é o livro da Bíblia que fala do amor homem-mulher, de sexo e de paixões. Pena que não estou com minha Bíblia aqui para citar o tal versículo, do qual não me lembro de cabeça. Mas, enfim, Alexandre tinha se declarado. O sentimento que eu tinha por ele era recíproco.
Lia aquele postal mil vezes ao dia, como que pra me certificar de que eu não tinha sonhado.
Claro que retribui a carta dele e, igualmente, botei lá um versículo, também de Cantares.
Pronto. Éramos oficialmente um casal. Não nos tocávamos, mas trocávamos cartas, nos amávamos, e isso nos bastava.
Foram meses e mais meses assim. Depois de um tempo, todo mundo sabia que éramos namorados e, a essa altura, estávamos sempre juntos.
Até que, um dia, houve a organização de um passeio da UPA para o Playcenter. Fretaríamos um ônibus e iríamos todos.
Vislumbrei ali a oportunidade do primeiro beijo. Eu devia ter uns treze anos. Os hormônios fervilhavam e eu estava com a ideia fixa no primeiro beijo. Na minha cabeça, o imaginei de mil maneiras diferentes.
Chegou o dia e, claro, eu e Alexandre sentamos lado a lado no ônibus. Chegamos ao parque, passamos o dia todo lá, grudados, e nada de beijo. Porém, num momento em que nos afastamos da turma, ele pegou na minha mão pela primeira vez. E foi a sensação mais gostosa do mundo. Não dá pra explicar o quão mágico foi esse momento pra mim. Hoje, em tempos em que os caras metem primeiro a mão na nossa bunda pra depois pegarem nas mãos, esse meu momento juvenil pode soar até patético. Mas está aí um momento do qual me lembro até hoje com um sorriso no rosto.
O problema é que o tempo foi passando e o primeiro beijo nunca aconteceu. Todo domingo eu esperava uma chance de ficar sozinha com Alexandre. A cada passeio promovido pela UPA minhas esperanças se reacendiam. Mas o fato é que eu já estava perto de completar quinze anos, e tudo que eu tive do Alexandre foram suas mãos nas minhas.
Eu já não podia mais. Estava na idade de satisfazer os desejos físicos. O amor platônico não mais me servia. Mandei uma cartinha pro Alexandre terminando tudo.
Até hoje lamento que meu primeiro beijo não tenha sido dele. Teria sido, certamente, um desses momentos que ficariam eternizados.
O que eu deveria ter levado como lição a partir da experiência desse amor platônico? Acho que, basicamente, uma coisa: nunca espere que um homem tome qualquer tipo de iniciativa.
E eu levei essa lição para a vida? Totalmente.
Hoje, se eu tenho vontade de dar um beijo em alguém, eu dou. Se eu gosto de alguém, eu digo. Se eu quero trepar, deixo claro.
A vida passa rápido demais e, acredito eu, é uma só. Não quero morrer com outros arrependimentos como o de nunca ter beijado aquele que foi o amor mais puro e doce de toda minha vida.
Escrito por Alê às 22h52
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Especial Dia dos Namorados: os pedidos de casamento
Não que eu seja uma deusa hoje mas, quando eu era criança, eu era uma coisinha de Jesus. Usava botas ortopédicas por causa dos joelhos tortos que me faziam cair feito folha seca no outono. Era gordinha, dessas bem rechonchudas, de bochechas vermelhas. E tinha um cabelo que, por Deus, se eu não amasse muito a minha mãe eu a odiaria até hoje por me submeter ao ridículo daquele corte tigelinha.
Não sei se eu era legal. Creio que não. Meus interesses, além da Bíblia, eram desenhar animais, tocar flauta, empinar pipa e apanhar amoras no fundo do quintal da casa dos meus pais. É, eu devia ser muito chata.
Como se isso não bastasse, eu também era má. Implacável. Pior que o personagem de Clint Eastwood em "Gran Torino". Eu realmente não tinha coração.
Porém, sei lá por que, houve meninos que gostaram de mim nessa época. E, mais inexplicavelmente ainda, houve dois meninos que me pediram em casamento.
Pra quem não é da minha época e/ou não viveu na periferia, preciso explicar algo antes de mais nada. Quando eu cursava o primário, época em que ocorreram os dois episódios que aqui relatarei, havia uma iguaria chamada arrozinho, vendida nas cantinas e portas de escolas de bairros ralés como aquele em que eu morava. Era mais ou menos assim: algo com o formato de arroz, só que doce e cor de rosa, embrulhado num saquinho transparente que, em geral, trazia amarrado na ponta um anel vagabundo e colorido.
Isto posto, vamos ao primeiro pedido de casamento.
Era a hora do recreio e eu e uma amiga estávamos sentadas na escadaria que dava para a quadra de ginástica da escola. Foi quando Clemerson, que estudou comigo da primeira a quarta série, se aproximou de mim. Pelo que me lembro, Clemerson era um menino bonito e bem meu amigo. Mas, naquele dia de sol, ele resolveu se declarar.
Sentou ao meu lado ignorando a presença de minha amiga e, me estendendo um anel do arrozinho, disse que gostava de mim e que queria se casar comigo. Nem pensei. Tomei o anel da mão dele e o arremessei no meio da quadra. Clemerson foi até lá, apanhou o anel e ficou meses sem olhar na minha cara.
Pausa dramática, porque não há nada que justifique essa selvageria de minha parte.
Mais ou menos na mesma época, veio o segundo pedido de casamento, que não foi exatamente um pedido.
Era noite, meus pais tinham saído e meu avô cuidava de mim e de minhas irmãs. Como meu pai não deixava que fôssemos pra rua nunca-jamais, aproveitamos a generosidade de que só os avós são capazes e ficamos eu e Vanessa sentadas na calçada, olhando o movimento noturno. Meu avô, pelo que me lembro, estava num bar ali bem próximo.
Tindo, um dos moleques do bairro que devia ter a mesma idade que eu, vinha subindo o morro (meus pais, até hoje, moram nessa ladeira) com mais algum vizinho que não me lembro quem era. Da esquina, ao me ver, já começou a gritar: "quando eu crescer, vou me casar com a Alessandra". E repetia: "quando eu crescer, vou me casar com a Alessandra".
Quem me conhece sabe que meu sangue ferve a temperaturas bem mais baixas que cem graus Celsius. E meu sangue ferveu com a ladainha de Tindo.
Enquanto ele se aproximava berrando, peguei uma pedra que estava no chão. E foi então, num ato de total covardia, que eu esperei ele passar por mim e lasquei-lhe uma pedrada, pelas costas.
Gente, eu sou do tipo que, se amasso um pedaço de papel pra jogar no lixo que fica ao meu lado, erro o alvo. Mas, nesse dia, eu acertei em cheio a cabeça de Tindo, um alvo distante e em movimento.
Eu e minha irmã saímos em disparada pra dentro de casa. Entramos, apagamos as luzes, trancamos a porta e fomos pra cama, fingindo dormir. Nem cinco minutos depois, alguém bate à porta. Era o Ney, outro vizinho, querendo saber quem tinha acertado o Tindo, que estava sangrando lá na rua. Pasmem! Eu, com medo de apanhar quando meus pais chegassem, disse que tinha sido a Gislene, uma menina da idade da minha irmã, que era nossa vizinha e amiga. Ou seja, eu não valia nada mesmo.
Ninguém acreditou na minha mentira deslavada, mas ficou tudo por isso mesmo.
O que eu deveria ter levado como lição a partir dessas experiências de brutalidade e violência? Acho que, basicamente, duas coisas:
1) Não é necessário violência pra se dar um pé na bunda, até porque um dia a bunda fatalmente será a sua e você vai ver que dói mesmo que não haja agressão.
2) Nunca despreze um pedido de casamento. Pode ser o único que você ouvirá na vida.
E eu levei essas lições para a vida? Enfim, sim.
Depois que eu descobri o clássico "o problema não é você, sou eu", nunca mais precisei de pedras.
A segunda lição, na verdade, não posso dizer que aprendi. Ela me foi imposta, porque nunca mais ninguém quis se casar comigo. Quase todos os meus ex se casaram com outras sem jamais terem me dado sequer uma aliança de compromisso. Virei uma espécie de trampolim para casamentos. Os caras passam pela minha vida, fazem um estágio e acabam levando outra pro altar.
Estaria eu pagando pelos meus pecados infantis? Gislene, a vizinha que eu injustamente acusei, teria me feito algum tipo de macumba? Tudo começa a fazer sentido.
Escrito por Alê às 02h25
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